Notícias

Enel anuncia bilhões em investimentos nos EUA e na Europa em meio à pressão no Brasil

Estratégia da multinacional de energia diz que foca na expansão em "ambientes estáveis" e contrasta com a pressão pela perda da concessão da empresa no estado de São Paulo.
Enel anuncia bilhões em investimentos nos EUA e na Europa em meio à pressão no BrasilRovena Rosa/Agência Brasil

O grupo Enel anunciou nesta segunda-feira (23) seu Plano Estratégico para o triênio 2026-2028, que prevê investimentos totais de 53 bilhões de euros (R$ 322 bilhões), a priorizar o crescimento de suas redes em países com "ambientes estáveis".

O montante representa um aumento de 10 bilhões de euros (R$ 61 bilhões), ou 23%, em relação ao plano anterior. Do total investido, a maior parte dos recursos está concentrada na Europa e na América do Norte, especialmente nos Estados Unidos. Mais de 43 bilhões de euros (R$ 262 bilhões) serão aplicados nessas regiões, enquanto cerca de 9 bilhões de euros (R$ 55 bilhões) serão destinados à América Latina, no total.

O anúncio do plano global ocorre em um contexto de tensão nas operações da Enel no Brasil. Citado por reportagem da InfoMoney, o CEO italiano Flavio Cattaneo abordou em sua apresentação os problemas de distribuição na região metropolitana de São Paulo, onde a rede aérea está instalada no meio das árvores, tornando os apagões frequentes durante tempestades.

Ele teria afirmado que a empresa propôs às autoridades uma solução de instalação de rede subterrânea ou de corte e replantio de árvores menores para criar "corredores de energia elétrica". Cattaneo foi enfático ao declarar que, mantida a situação atual, apenas "Jesus Cristo" seria capaz de evitar os apagões, pois a empresa estaria fazendo tudo o que é "humanamente" possível.

Pressão na concessão

A crise operacional que embasa o conflito atual foi agravada por um evento climático em dezembro de 2025. Um vendaval no dia 10 daquele mês deixou mais de 2,2 milhões de clientes da Enel sem energia na Grande São Paulo, com o restabelecimento total levando mais de cinco dias em muitas áreas. Este evento, considerado uma "severa interrupção", foi alvo de fiscalização específica pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para avaliar a reincidência de falhas da empresa.

O Ministério de Minas e Energia emitiu nota após o ocorrido, reafirmando "rigor absoluto" e responsabilizando a Enel por falhas, advertindo que o descumprimento de metas poderia resultar na perda da concessão. O Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou, no mesmo mês, que a Aneel avaliasse detalhadamente a intervenção no contrato, apontando a ineficácia das penalidades anteriores

Já em fevereiro deste ano, o governo do estado de São Paulo, sob Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), enviou ofício ao ministério e à Aneel pedindo a suspensão da renovação e a declaração de caducidade do contrato, diante de falhas reiteradas.

O processo de caducidade da concessão é permeado por disputas jurídicas e uma série de penalidades aplicadas à empresa. A Aneel informa que os eventos desde 2023 ocasionaram a maior multa do setor, de R$ 165 milhões, cuja cobrança está suspensa por decisão judicial. Além desta, a Justiça Federal manteve outra multa de R$ 95,8 milhões, aplicada por falhas em 2021, rejeitando o recurso da empresa que alegava desproporcionalidade, segundo a Agência Brasil.

Um ofício da Aneel à AGU, em fevereiro de 2026, listou R$ 320,8 milhões em penalidades aplicadas e revelou que, de 11 planos de trabalho firmados com a Enel São Paulo, sete tiveram desempenho considerado insatisfatório e foram reprovados pela agência, de acordo com a ICL Notícias.

Paralelamente, a Enel se defendeu por meio de pareceres jurídicos que argumentam ser ilegal incluir o apagão de dezembro de 2025 na análise de caducidade. A empresa afirmou seguir colaborando de maneira transparente com a agência reguladora para demonstrar o cumprimento de seus planos de recuperação.