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CJNG, o cartel mexicano mais poderoso e violento, com alcance internacional

O grupo nasceu da dissidência de uma organização criminosa e ganhou espaço ao eliminar rivais com base na violência e no terror.
CJNG, o cartel mexicano mais poderoso e violento, com alcance internacionalRedes Sociais

O narcotráfico internacional foi abalado com a morte de Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho", líder do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG). Ele foi morto em uma operação das forças federais mexicanas, em um episódio que deve reconfigurar a estrutura da que era considerada a organização criminosa transnacional mais poderosa do México.

A ascensão do chamado cartel das "Quatro Letras", como também é conhecido no país, não ocorreu de forma repentina. O grupo surgiu a partir da divisão de outra organização criminosa, consolidou-se como uma rede violenta de extorsão e, ao longo dos anos, transformou-se em uma estrutura com presença que ultrapassa as fronteiras do continente americano, alcançando mercados na Ásia e na Oceania.

"El Jefe"

"El Mencho" era o líder histórico e principal referência do CJNG. O Departamento de Estado dos Estados Unidos oferecia recompensa de até 15 milhões de dólares (cerca de R$ 78 milhões) por informações que levassem à sua captura, uma das maiores já anunciadas contra um narcotraficante mexicano.

Oseguera nasceu em 17 de julho de 1966, no estado de Michoacán. Ainda jovem, migrou para os Estados Unidos, mas foi deportado ao México por envolvimento em crimes relacionados ao tráfico de drogas. De volta ao país, integrou o Cártel del Milenio e o Cártel de Sinaloa.

Após a morte de Ignacio "Nacho" Coronel e a fragmentação do Cártel del Milenio, Oseguera consolidou a estrutura que deu origem ao CJNG, por volta de 2011.

Sob sua liderança centralizada, característica menos comum entre organizações criminosas mexicanas, o cartel expandiu sua presença para pelo menos metade dos estados do país e estruturou uma rede internacional. Até sua morte, aos 59 anos, era apontado como o narcotraficante mais influente do México.

Consolidação

Como ocorre com outros cartéis, a hegemonia do grupo foi construída sobre a violência e o enfraquecimento de rivais. A brutalidade e as demonstrações públicas de força contribuíram para a consolidação do CJNG no cenário criminal mexicano.

O enfraquecimento do Cártel de Sinaloa, em meio às disputas internas após a prisão de Joaquín Guzmán, conhecido como "El Chapo", também abriu espaço para o avanço da organização liderada por Oseguera no controle de rotas de tráfico de drogas. Um de seus aliados era o cunhado, Abigael González Valencia, que comandava o grupo Los Cuinis até ser preso, em 2015.

Autoridades dos Estados Unidos acusavam "El Mencho" de liderar um "reinado de terror" no México e de provocar "incontáveis mortes" por meio do tráfico de fentanil. No ano passado, com base nesses argumentos, o CJNG foi classificado como organização terrorista pelo governo do presidente Donald Trump.

Segundo informações de inteligência da DEA divulgadas pela imprensa mexicana, o cartel ampliou sua presença em estados litorâneos banhados pelos oceanos Pacífico e Atlântico, o que teria facilitado o acesso a mercados na Ásia, Oceania e Europa.

Rede internacional

A atuação do CJNG não se restringe ao narcotráfico. Nos últimos anos, vieram à tona investigações que associam o grupo a atividades como roubo e comércio ilegal de combustível, extorsões no setor agrícola mexicano e golpes telefônicos envolvendo a venda fraudulenta de pacotes turísticos para estrangeiros.

Uma apuração da agência Reuters revelou a existência de um esquema sofisticado de tráfico de combustíveis, que envolvia a empresa norte-americana Ikon Midstream, vendedores de diesel no Canadá e intermediários que tentaram introduzir a mercadoria no México sem o pagamento de impostos.

De acordo com as investigações, a logística de navios "fantasma" seria controlada pelo CJNG. Em outubro, o senador estadual do Texas Juan Hinojosa afirmou que cartéis haviam se infiltrado em diversos negócios legais na região de fronteira e em áreas mais ao norte.

O estado do Texas é apontado como um dos principais centros de operação da organização nos Estados Unidos. Uma investigação judicial citada pelo jornal mexicano Milenio indicou que a cidade de Houston funcionava como polo de distribuição de drogas para outras cidades norte-americanas, em articulação com o cartel do Golfo.

Uma estrutura semelhante foi identificada na Espanha. No fim de 2025, a Polícia Nacional espanhola desmantelou uma célula atribuída ao CJNG no país, em operação conjunta com a DEA e autoridades dos Países Baixos.

Na ocasião, ao menos 20 pessoas foram presas, incluindo integrantes da Camorra, organização criminosa italiana. As investigações apontaram que o grupo atuava na entrada de grandes carregamentos de cocaína e metanfetamina oriundos da América do Sul para posterior distribuição na Espanha e em outros países europeus.

Em maio de 2023, a Direção de Investigação Antimáfia da Itália alertou que máfias italianas demonstravam interesse crescente na Colômbia e no México, com destaque para possíveis vínculos entre a 'Ndrangheta' e o CJNG.

Uma nova geração?

No início deste ano, em meio à pressão do governo Trump sobre o México para intensificar o combate aos cartéis, passou a circular na imprensa mexicana o nome de um possível sucessor de Oseguera.

Segundo o jornal El Financiero, trata-se de Gonzalo Mendoza Gaytán, conhecido como "El Sapo". Ele é procurado no México e nos Estados Unidos, e o Departamento do Tesouro norte-americano o acusa de coordenar um esquema de recrutamento forçado de jovens para integrar o CJNG.

As autoridades também o apontam como responsável pelo controle do Rancho Izaguirre, descrito como centro de extermínio e de recrutamento de pistoleiros descoberto no ano passado em Jalisco. O local ganhou repercussão internacional após a divulgação de imagens de pilhas de roupas, sapatos e malas abandonadas, encontradas por coletivos de familiares de desaparecidos.

Outro ponto destacado pela imprensa é que a operação que resultou na morte de "El Mencho" ocorreu sob a gestão de Omar García Harfuch à frente da Secretaria de Segurança e Proteção Cidadã do México.

Em 2020, García Harfuch sofreu um atentado na Cidade do México, quando ocupava o cargo de secretário de Segurança da capital. Na ocasião, ele afirmou que o CJNG estaria por trás do ataque.