
Onde fica a Ilha de Diego Garcia e qual seria seu papel num possível ataque dos EUA ao Irã?

A ilha de Diego Garcia, no centro do Oceano Índico, tornou-se peça-chave nas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre um possível ataque à República Islâmica do Irã caso não haja acordo entre Washington e Teerã.
Localizada a mais de 2 mil quilômetros a nordeste das Ilhas Maurício, a ilha abriga uma base militar administrada pelo Reino Unido e arrendada aos Estados Unidos, considerada um dos principais pontos de apoio das forças americanas fora do território continental.
Onde fica o arquipélago de Chagos
Diego Garcia integra o arquipélago de Chagos, formado por sete atóis no Oceano Índico. O território foi incorporado ao Império Britânico em 1814, no âmbito do Tratado de Paris, após a derrota de Napoleão.
Em 1965, o Reino Unido separou o arquipélago de Maurício, que se tornaria independente em 1968, e declarou Chagos como Território Britânico do Oceano Índico. A medida permitiu a instalação de uma base militar no principal atol, Diego Garcia, destinada ao uso conjunto de britânicos e americanos.
Para viabilizar o projeto, mais de 1.300 habitantes foram removidos da ilha. O território foi então arrendado aos Estados Unidos por 50 anos.
Disputa por soberania e acordo com Maurício
Durante décadas, Maurício reivindicou a soberania sobre o arquipélago. Em 2019, a Corte Internacional de Justiça considerou ilegal a separação das ilhas em 1965, posição posteriormente ratificada pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Em maio de 2025, o governo britânico concordou em transferir a soberania de Chagos a Maurício e manter a base de Diego Garcia sob arrendamento por 101 milhões de libras por ano, ao longo de 99 anos.
A decisão foi criticada por Trump, que a classificou como "um ato de grande estupidez que se soma a uma longa lista de questões de segurança nacional pelas quais a Groenlândia deve ser adquirida".
O presidente dos Estados Unidos acrescentou: "Não há dúvida de que a China e a Rússia notaram esse ato de fraqueza total. São potências internacionais que só reconhecem a força, então os Estados Unidos, sob minha liderança, agora, depois de apenas um ano, são respeitados como nunca antes".
Após conversa telefônica com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, Trump também advertiu sobre possíveis medidas caso a presença americana na base seja ameaçada. "Se o contrato de locação a qualquer momento no futuro for quebrado, ou alguém ameaçar ou colocar em risco as operações e forças dos EUA em nossa base, eu me reservo o direito de garantir e fortalecer militarmente a presença dos EUA em Diego Garcia", declarou.
"Que fique claro que nunca permitirei que nossa presença em uma base tão importante seja prejudicada ou ameaçada por falsas alegações ou bobagens ambientais," acrescentou.

Por que a base é estratégica para Washington
A posição geográfica de Diego Garcia permite aos Estados Unidos projetar poder militar em uma área que abrange o Oriente Médio, a África Oriental e o Sul da Ásia.
A base conta com pista capaz de receber, segundo o jornal britânico The Independent, bombardeiros de longo alcance e aeronaves de reabastecimento em voo, além de porto de águas profundas apto a receber grandes navios de guerra.
A instalação já foi utilizada em operações como a Guerra do Golfo em 1991, o conflito no Afeganistão em 2001 e a fase inicial da Guerra do Iraque em 2003. No Oceano Índico, o atol também funciona como centro logístico para navios e grupos de ataque americanos.

Qual seria o papel em um ataque ao Irã
A possibilidade de uso da base contra a República Islâmica do Irã foi mencionada por Trump em 19 de fevereiro, na rede Truth Social. Segundo o presidente dos Estados Unidos, "se o Irã decidir não chegar a um acordo, pode ser necessário que os EUA usem [a ilha de] Diego Garcia e a base aérea localizada em Fairford para repelir um possível ataque de um regime altamente instável e perigoso".
Ele acrescentou que essa possível agressão também "poderia ser perpetrada contra o Reino Unido, bem como contra outros países amigos" dos EUA.
"Estaremos sempre preparados, dispostos e capacitados para lutar pelo Reino Unido, mas eles têm que se manterem firmes diante do 'wokismo' [politicamente correto] e outros problemas que surgirem no caminho", declarou.

Pela sua localização e infraestrutura, Diego Garcia permite a operação de bombardeiros estratégicos, como o B-2 Spirit, capazes de realizar voos de longa distância até o território iraniano. A base também pode servir como ponto de apoio para grupos de ataque liderados por porta-aviões deslocados ao Oriente Médio.
Bombardeiros estratégicos estacionados na base têm capacidade de voar até Teerã e realizar um ataque em cerca de 5 ou 6 horas. Já o deslocamento de navios de guerra a partir de Diego Garcia até as águas territoriais do Irã pode levar entre 3 e 7 dias, dependendo do tipo de embarcação empregada.

Segundo o jornal The Times, o primeiro-ministro britânico decidiu bloquear o pedido de Washington para que aeronaves americanas utilizassem bases britânicas em eventual ataque ao Irã, sob o argumento de que isso violaria o direito internacional. A restrição envolveria tanto as instalações em Diego Garcia quanto a Base Aérea de Fairford, em Gloucestershire.
