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Entenda por que a Índia não aceita ordens de Washington

Um país da magnitude da Índia não pode simplesmente seguir as instruções de outro, afirma o analista Fyodor Lukianov, ressaltando que "a soberania não implica liberdade de ação ilimitada".
Entenda por que a Índia não aceita ordens de WashingtonLegion-media.ru / ZUMA Press / White House / Shealah Craighead

Uma intensa troca de ideias entre representantes dos Estados Unidos e da Índia na Conferência de Segurança de Munique, realizada entre 13 e 15 de fevereiro, ofereceu uma imagem revesladora do funcionamento real da ordem mundial emergente. É o que indica Fyodor Lukianov, editor-chefe da Russia in Global Affairs, em um artigo publicado na terça-feira (17). 

Seguindo a linha traçada pelo presidente americano, Donald Trump, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que Nova Delhi havia prometido a Washington que deixaria de comprar petróleo russo. Pouco depois, em outro painel, o ministro das Relações Exteriores indiano, Subrahmanyam Jaishankar, recusou-se a confirmar tal compromisso. Ele ressaltou que a Índia tomaria suas próprias decisões, "que nem sempre seriam do agrado deles". Todos teriam que aceitar isso, acrescentou.

A verdade, como sempre, provavelmente está em algum ponto intermediário. Mas o episódio trata menos de quem disse o quê e mais de um problema sistêmico mais profundo.

A Índia se viu, de forma um tanto inesperada, no centro da tentativa de Washington de construir um regime internacional à medida dos interesses norte-americanos. Não se trata de uma ordem mundial no sentido clássico, com regras aceitas como legítimas por todos. Trata-se de um sistema de relações mais flexível e transacional com os principais estados, projetado para maximizar a vantagem política e econômica do país norte-americano.

Abordagem russa

O aumento do comércio entre a Rússia e a Índia nos últimos anos, principalmente por meio das exportações energéticas russas, naturalmente atraiu a atenção da Casa Branca. Mas a pressão sobre Nova Delhi vai além do petróleo. A Índia é uma das potências mais populosas, que mais crescem e com maior peso estratégico nas próximas décadas. Integrá-la em um quadro centrado nos Estados Unidos seria uma conquista por si só. Sem mencionar um precedente instrutivo para outros, apontou o analista.

A abordagem russa é especialmente conveniente. Ela pode ser apresentada como parte de um esforço supostamente nobre para pacificar a Ucrânia, em vez de uma simples coerção econômica. Ao contrário de outras manifestações do "trumpismo", abertamente mercantilistas, esta pode ser envolta em uma linguagem moral, acrescentou Lukianov.

Ao mesmo tempo, a Rússia e a Índia compartilham genuinamente uma relação de longa data, forjada ao longo de décadas por meio da confiança política e da simpatia mútua, pelo menos na medida em que tais sentimentos possam existir entre estados. Precisamente porque essa relação é estável e resiliente, é ainda mais tentador para Washington enfraquecê-la e redirecioná-la em seu próprio benefício, acredita o analista.

Soberania não implica liberdade de ação ilimitada

A Índia é membro fundador do BRICS, um ator global em ascensão com ambições compatíveis com seu tamanho. Um país dessa magnitude não pode simplesmente seguir as instruções de outro. Por definição, é soberano e lembra isso constantemente ao mundo.

No entanto, soberania não implica liberdade de ação ilimitada. A margem de manobra da Índia é limitada pelas realidades econômicas, dependências estratégicas e rivalidades regionais. Na prática, a independência exige flexibilidade: um equilíbrio constante entre o desejável e o alcançável.

Flexibilidade ou oportunismo?

De uma perspectiva puramente econômica, comprar petróleo russo — claramente mais barato do que muitas alternativas — faz muito sentido para a Índia. O crescimento sustentado é essencial para um país com uma população numerosa e ainda desfavorecida, e com o risco constante de instabilidade social.

Ao mesmo tempo, os EUA são o principal parceiro comercial da Índia, um fator indispensável não apenas economicamente, mas também estrategicamente. A China, por sua vez, é um parceiro econômico fundamental no mundo não ocidental e o principal rival geopolítico e militar da Índia. O panorama resultante é tudo menos simples.

A observação do ministro das Relações Exteriores indiano de que seu país tomaria decisões que "não agradariam" foi dirigida diretamente ao público ocidental. Era um lembrete para não esperar obediência. No entanto, a mesma lógica pode ser aplicada em outros lugares.

Moscou também observa com inquietação como a Índia reduz as compras de petróleo russo sob pressão dos Estados Unidos. Da perspectiva russa, tais manobras — que poderíamos chamar, mais diretamente, de oportunismo — podem parecer uma falta de soberania, uma disposição de se acomodar aos interesses de outra potência às custas próprias.

Mas essa sentença reflete uma compreensão especificamente russa da soberania. Moldada pela história, a concepção russa é rígida e inflexível, definida pela resistência à influência externa em quase todas as formas. Essa abordagem é cada vez mais rara em um mundo interconectado.

Priorize o que é seu

A compreensão da Índia, como a de muitos outros Estados, é diferente. Soberania não significa necessariamente não ceder à pressão; significa encontrar maneiras de concretizar os próprios interesses em condições desfavoráveis. A essência desses interesses é a estabilidade interna e o desenvolvimento contínuo, prioridades que se tornaram ainda mais urgentes em meio à turbulência global.

A coesão interna sempre foi importante. No entanto, hoje em dia, a interdependência a magnifica. A instabilidade interna interage agora com as perturbações externas, amplificando os seus efeitos desestabilizadores. Para a maioria dos governos, preservar o equilíbrio social e político interno prevalece sobre princípios abstratos ou coerência ideológica.

Essa é a realidade prática do que muitas vezes é chamado de mundo multipolar. Se deixarmos de lado a retórica, ele funciona de acordo com uma velha regra, reinterpretada em linguagem moderna: priorize o que é seu. A chamada maioria global segue exatamente essa lógica. Os Estados perseguem seus interesses da maneira como os entendem, adaptando-se às circunstâncias em vez de se apegar a dogmas.

Ao lidar com parceiros, é fundamental adotar uma atitude serena e sem sentimentalismos. Agir em benefício próprio não é cinismo; é um comportamento normal de um Estado. A Rússia deve fazer o mesmo: com firmeza, confiança e sem ilusões. A aprovação dos outros é secundária. O importante é confiar no próprio critério e agir de acordo com ele, finalizou Lukianov.