O nome da cientista Tatiana Sampaio passou a circular fora dos laboratórios quando pacientes com lesão medular começaram a relatar retomada de movimentos após receberem uma substância desenvolvida por sua equipe na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A pesquisa, conduzida ao longo de mais de duas décadas em instituição pública brasileira, avançou recentemente para a fase clínica com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
A tecnologia nasceu a partir da polimerização da laminina, proteína presente na matriz extracelular e associada a processos de regeneração neural. A substância desenvolvida no laboratório da UFRJ teve sua patente concedida no Brasil em 2025, consolidando o reconhecimento formal de uma linha de pesquisa inteiramente nacional.
A exposição pública, no entanto, mudou a rotina da pesquisadora. "Antes eu quase não via celular. Agora eu preciso estar atenta porque sempre tem pessoas me mandando mensagem. Seja para resolver problemas, seja para marcar entrevista, seja para responder dúvidas. Tá uma loucura", relatou à revista Marie Claire.
A repercussão cresceu à medida que casos passaram a ser divulgados. Entre eles está o do bancário Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após um acidente de carro. Ele recebeu a substância 24 horas depois do trauma e passou por meses de reabilitação.
"Quando percebi que não sentia nada do pescoço para baixo, eu fiquei muito triste, só queria dormir", contou. A mudança começou de forma discreta.
"Até um dia que acordei e vi que um dedão estava mexendo. Não entendi porque todo mundo estava comemorando, era só um dedão. Aí me explicaram sobre a polilaminina. Foi o que mudou minha vida", afirmou à revista.
Outros relatos vieram a público nos meses seguintes, impulsionados por decisões judiciais que autorizaram aplicações antes da conclusão dos estudos clínicos. Pacientes com lesão medular completa passaram a registrar recuperação parcial de sensibilidade ou pequenos movimentos após o procedimento.
Diante da repercussão, Tatiana tenta equilibrar expectativa e responsabilidade científica. "Qualquer pessoa que trabalha com ciência tem o desejo de ver o seu trabalho resultar em alguma coisa na vida real. Mas, honestamente, não imaginava que ia ter essa publicidade toda", disse.
Para a pesquisadora, o momento agora é de consolidação científica. A Anvisa autorizou o início da fase 1 do estudo clínico, que avaliará a segurança da aplicação em cinco voluntários com lesão medular aguda, ocorrida há até 72 horas.
"Estou feliz e aliviada. Agora podemos avançar e ter mais respostas. Temos uma substância muito promissora. Espero que, se tudo der certo, possamos continuar mostrando bons resultados e que a polilaminina possa chegar ao maior número de pessoas", afirmou à Folha de S.Paulo.
Ao mesmo tempo, ela defende que o avanço ocorra dentro dos protocolos regulatórios. "Não temos dúvidas de que houve ação da polilaminina e que a medula dos pacientes está respondendo ao tratamento. Isso está claro nos exames técnicos e para toda a equipe médica. Mas, agora, precisamos proteger as pessoas. Precisamos trabalhar dentro do estudo clínico para coleta de dados e controle. Não dá pra continuar como está".
A fase atual não mede eficácia, mas segurança. Apenas após a conclusão das próximas etapas será possível determinar com precisão o impacto da substância.
Ainda não há comprovação científica conclusiva sobre a eficácia da polilaminina em humanos, e a confirmação de que as melhoras observadas decorrem diretamente do tratamento dependerá de estudos clínicos controlados, como ressaltaram especialistas ouvidos pela revista VEJA SAÚDE.