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Polilaminina: entenda o tratamento brasileiro que pode fazer tetraplégicos voltarem a se mover

Pesquisa desenvolvida pela UFRJ e apoiada pelo Ministério da Saúde entra na fase clínica após relatos de pacientes que voltaram a mexer braços e pernas depois de perder os movimentos.
Polilaminina: entenda o tratamento brasileiro que pode fazer tetraplégicos voltarem a se moverGettyimages.ru / Huntstock

Voltar a mexer um dedo após meses sem resposta do corpo.

Sentir novamente o toque na perna.

Conseguir contrair o pé depois de um diagnóstico considerado irreversível.

Esses relatos começaram a aparecer no Brasil após a aplicação experimental da polilaminina, uma substância desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para tratar lesões na medula espinhal.

A medula é a estrutura responsável por transmitir os comandos do cérebro para o corpo. Quando ela sofre uma lesão grave, especialmente as chamadas lesões completas, o paciente pode perder totalmente os movimentos e a sensibilidade abaixo do ponto atingido. É o que acontece nos quadros de paraplegia e tetraplegia.

A polilaminina surge como uma tentativa de enfrentar esse cenário.

Entre os casos que deram visibilidade nacional à pesquisa está o do bancário Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após um acidente de carro em 2018.

Ele recebeu a aplicação 24 horas depois do trauma e passou por meses de reabilitação. "Quando percebi que não sentia nada do pescoço para baixo, eu fiquei muito triste, só queria dormir", relatou.

A mudança começou de forma quase imperceptível.

"Até um dia que acordei e vi que um dedão estava mexendo. Não entendi porque todo mundo estava comemorando, era só um dedão. Aí me explicaram sobre a polilaminina. Foi o que mudou minha vida", afirmou à revista Marie Claire.

De onde vem a polilaminina

Depois de mais de duas décadas de pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a equipe liderada pela cientista Tatiana Sampaio teve a tecnologia oficialmente patenteada no Brasil em 2025. O reconhecimento marca a consolidação de um estudo desenvolvido integralmente em instituição pública brasileira.

O documento descreve o "uso de laminina polimerizada em meio ácido para tratar lesões tissulares traumáticas, degenerativas ou inflamatórias".

A laminina é uma proteína da matriz extracelular associada ao crescimento e à regeneração neural. Ao ser polimerizada em meio ácido, forma os chamados polímeros ácidos proteicos, ou pLN. Segundo o relatório da patente, esses polímeros apresentam ação regenerativa e anti-inflamatória

O que aconteceu nos primeiros pacientes

A partir do fim de 2025, a polilaminina começou a ser aplicada em pacientes por meio de decisões judiciais, e os primeiros relatos de retomada de movimentos passaram a ser registrados.

A Folha de S.Paulo informou, em dezembro daquele ano, que dois pacientes com lesão medular completa apresentaram recuperação de sensibilidade e pequenos movimentos após a aplicação da substância.

Um dos casos foi acompanhado pelo neurocirurgião Bruno Alexandre Côrtes, que afirmou ao jornal: "Eu operei o rapaz e vi uma transecção completa da medula. Não havia a menor chance de esse paciente ter qualquer movimento ou sensibilidade em condições normais. A única explicação é a polilaminina. Não existe outra".

Nas semanas seguintes, outros relatos vieram a público. Em janeiro de 2026, a influenciadora Flávia Bueno voltou a movimentar o braço direito três dias após receber a substância por decisão judicial. Segundo a família, o movimento não existia antes do procedimento.

No mesmo período, o jovem Luiz Otávio, que recebeu a aplicação 110 dias após o trauma, relatou contração na musculatura das pernas e a sensação de toque no pé

"Sinto que estou fazendo força com os músculos da minha perna. É um leve movimento, mas ele não existia. Também passei a ter uma sensação de calor nas pernas. Senti o toque da mão da minha mãe no meu pé. Não tenho nenhuma dúvida, foi tudo depois da polilaminina, antes isso não existia", contou. 

Em fevereiro, o neurologista Vicente José Schiavão também relatou melhora após o procedimento, embora tenha adotado cautela ao avaliar os resultados. "Aparentemente, a polilaminina sugere um benefício, mas ainda faltam elementos para dizer categoricamente que funciona", declarou.

Até o fim de janeiro de 2026, ao menos 17 aplicações compassivas haviam sido realizadas no país, segundo as reportagens. O laboratório Cristália informou que não há comercialização do produto e que a substância permanece em fase de estudo.

Aval da Anvisa e anúncio do Ministério da Saúde

O avanço regulatório ocorreu em 5 de janeiro 2026. Nessa data, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária anunciaram a aprovação da fase 1 do estudo clínico da polilaminina.

De acordo com comunicado oficial, o estudo envolverá cinco pacientes voluntários com indicação cirúrgica em até 72 horas após a lesão. O objetivo da fase 1 é avaliar a segurança da aplicação da substância diretamente na medula espinhal.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou: "A aprovação, pela Anvisa, de um estudo desenvolvido em uma universidade pública tem potencial para revolucionar o tratamento no SUS e no país".

O diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, declarou que a autorização foi priorizada pelo comitê de inovação da agência e destacou que se trata de "uma pesquisa 100% nacional".

Segundo o comunicado, os voluntários devem ter entre 18 e 72 anos e apresentar lesões agudas completas da medula torácica, entre as vértebras T2 e T10, ocorridas há menos de 72 horas.

O que ainda precisa ser comprovado

A fase 1 não mede eficácia, mas segurança. Isso significa que o estudo busca identificar possíveis riscos e efeitos adversos antes de avançar para etapas maiores, que envolverão mais pacientes.

Ainda não há comprovação científica conclusiva sobre a eficácia da substância em humanos, e a confirmação de que as melhoras observadas decorrem diretamente da polilaminina dependerá de estudos clínicos controlados, segundo especialistas ouvidos pela revista VEJA SAÚDE.

O ortopedista Alexandre Fogaça afirmou à publicação: "Ainda não é um remédio e não é um tratamento. É algo que está no início das pesquisas".

Especialistas também lembram que, mesmo em lesões consideradas completas, uma pequena parcela dos pacientes pode apresentar alguma recuperação espontânea ao longo do tempo, o que exige estudos estruturados para estabelecer relação direta entre causa e efeito.

O estágio atual da pesquisa

  • A tecnologia está protegida por patente concedida à UFRJ.

  • Estudos em modelo animal mostraram regeneração axonal, redução da inflamação e melhora funcional.

  • Aplicações autorizadas judicialmente registraram relatos de retomada de movimentos e sensibilidade.

  • A Anvisa autorizou o início da fase 1 de estudo clínico para avaliar segurança.

  • O Ministério da Saúde anunciou apoio institucional e classificou a iniciativa como avanço regulatório e científico.

A confirmação científica definitiva dependerá das próximas fases do estudo clínico, com publicação de dados revisados por pares e acompanhamento regulatório completo.