
Congresso destitui presidente interino do Peru, que já soma 7 líderes em 8 anos

O Congresso da República do Peru destituiu, nesta terça-feira (17), o presidente interino José Jerí, apenas quatro meses após ele assumir o comando do país. A decisão ocorre depois de uma sucessão de escândalos e acusações de suposto tráfico de influência.
Em uma sessão extraordinária, convocada após a obtenção das assinaturas necessárias durante o recesso parlamentar, foram registrados 75 votos a favor, 24 contra e três abstenções.
A saída de José Jerí prolonga a instabilidade institucional que marca a política peruana na última década. Com a destituição, o sucessor a ser escolhido pelo Congresso se tornará o oitavo presidente do país em apenas oito anos, reforçando o cenário de crise política.
"Encontra-se vago o cargo de presidente da República", anunciou o primeiro vice-presidente encarregado da Presidência do Parlamento, Fernando Rospigliosi.

Eles deram esse passo após admitirem o debate das sete moções de censura e, posteriormente, unificá-las em uma só para facilitar a votação.
Nesse ínterim, o fujimorismo e outras forças tentaram obstruir o processo, alegando que Jerí deveria ser removido por uma moção de vacância (impeachment), e não de censura, mas o plenário rejeitou o pedido.
Jerí enfrentava sete moções de censura, apresentadas entre 21 e 27 de janeiro, período em que a imprensa local revelou que o político teria se reunido secretamente com o chinês Zhihua Yang, empresário ligado ao setor de infraestrutura e negócios na América Latina.
Acusações
Desde o final de janeiro, diversos partidos iniciaram uma ofensiva contra Jerí, que viu sua popularidade despencar à medida que novas polêmicas surgiam na mídia.
No sábado (14), o partido ultraconservador Renovação Popular (RP) distanciou-se de Jerí e listou os motivos para votar a favor de sua censura como presidente do Congresso, cargo que o levou à presidência do Peru após a vacância de sua antecessora, Dina Boluarte.
"Ele abusou de sua posição no Palácio para levar mulheres ao local durante toda a noite e, posteriormente, conceder-lhes cargos bem remunerados", afirmou o partido.
A legenda também criticou a gestão de Jerí no combate à insegurança pública, principal problema atual do país.
Por fim, o RP mencionou outro escândalo: em novembro de 2024, quando ainda era apenas congressista, Jerí celebrou seu aniversário de 38 anos com uma festa exclusiva na cidade de Cieneguilla, que teria contado com a presença de "mulheres ligadas à prostituição".
"Uma delas foi assassinada por pistoleiros vinculados a congressistas investigados por montar uma rede de exploração sexual no Congresso", denunciou o Renovação Popular.

O que diz Jerí
No domingo (15), em entrevista ao canal local Panamericana, o presidente interino reconheceu que se reuniu com Zhihua de "forma inadequada", por ter ocorrido "fora do Palácio de Governo e por ele estar usando um capuz durante a noite".
Questionado pela apresentadora Milagros Leiva sobre o duro comunicado do RP, Jerí criticou o que chamou de "comentários misóginos".
"Pelo fato de serem mulheres, profissionais e jovens, tentam sugerir que o único mérito delas seria estar em uma reunião ou conhecer o presidente (...) houve muito preconceito de vários setores ao querer estigmatizar que as mulheres só podem obter algo do Estado se tiverem algum tipo de vínculo (pessoal)", pontuou.
Além disso, ele afirmou que Andrea Vidal não compareceu à sua festa em Cieneguilla. Vidal trabalhava no Legislativo e foi assassinada a tiros dentro de um táxi em 2024.
Ela era assessora de um funcionário que foi destituído após ser denunciado por cafetinagem. Jerí classificou como "cortina de fumaça" a acusação de uma suposta rede de prostituição no Congresso vinculada ao crime.

