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Tradição de 3,5 mil anos: como o Ano-Novo Chinês ainda molda a vida no país

Festival marca a virada do calendário tradicional e provoca a maior migração anual do planeta.
Tradição de 3,5 mil anos: como o Ano-Novo Chinês ainda molda a vida no paísGettyimages.ru / rachasuk

A mais importante festa da China é o Ano-Novo Chinês, que prevê celebrações familiares e uma semana de feriado oficial. A tradição tem raízes milenares e remonta a aproximadamente 3,5 mil anos.

No país, a data também é conhecida como Festival da Primavera, pois simboliza o fim do inverno e o início da nova estação. A festividade marca a virada de ano no calendário lunar e expressa o desejo por renovação, prosperidade e boa sorte.

Desde sua origem, a celebração possui forte caráter familiar: milhões de pessoas viajam para se reunir com parentes nessa época. Devido à intensidade desses deslocamentos, o período ficou conhecido como Chunyun, ou "Movimento de Primavera", considerado a maior migração humana anual do mundo.

O evento não tem data fixa. O início das comemorações é definido a cada ano pelo calendário tradicional chinês, que combina elementos solares e lunares. O feriado começa na segunda lua nova após o solstício de inverno, em 21 de dezembro, e costuma cair entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro.

A origem da tradição

Há diversas teorias sobre o surgimento do Ano-Novo Chinês. Uma das mais populares envolve a lenda da criatura mítica Nian ("ano", em chinês), que, segundo a tradição, atacava aldeias na véspera do novo ano, devorando colheitas, animais e até pessoas. Para se proteger, moradores passaram a deixar comida à porta de casa como oferenda.

Conta-se que um sábio percebeu que a criatura temia barulhos altos e a cor vermelha. Assim, surgiram costumes como pendurar lanternas e faixas vermelhas nas portas e janelas e acender bambu crepitante — prática que mais tarde evoluiu para o uso de fogos de artifício.

No entanto, o termo "Nian" aparece inicialmente em registros da dinastia Zhou (1046–256 a.C.), período em que se realizavam rituais de sacrifício a ancestrais e divindades para garantir boas colheitas no novo ciclo anual. Alguns estudiosos acreditam que as origens da festividade remontam ainda à dinastia Shang (1600–1046 a.C.), quando já eram realizados rituais semelhantes no início ou no fim de cada ano.

Ao longo do tempo, a tradição foi se consolidando e adquirindo novas práticas. Durante a dinastia Han (202 a.C.–220 d.C.), estabeleceram-se costumes como queimar bambu para produzir ruídos e afastar espíritos malignos, além de celebrações familiares, refeições festivas e a vigília na véspera do ano novo. 

De celebração religiosa a festival popular

Com o passar dos séculos, surgiram manifestações culturais que reforçaram o caráter festivo do evento, como as danças do dragão e do leão, feiras de templo e espetáculos de lanternas. Isso marcou a transição de uma celebração essencialmente religiosa para uma festividade nacional e cultural.

Em 1912, o governo chinês adotou oficialmente o calendário gregoriano, estabelecendo 1º de janeiro como início do ano civil. Posteriormente, em 1949, o feriado tradicional passou a ser oficialmente chamado de Festival da Primavera, embora o nome "Ano-Novo Chinês" continue amplamente usado.

Como são as celebrações atualmente

De modo geral, o tema central da festa é despedir-se do ano que termina e dar boas-vindas a um novo ciclo repleto de sorte e prosperidade.

Antes da virada, famílias limpam cuidadosamente a casa para "varrer" a má sorte e abrir espaço para energias positivas. Também decoram ambientes com elementos vermelhos e dourados — cores associadas à felicidade, prosperidade e proteção espiritual. Lanternas são penduradas nas ruas, e dísticos (pares de versos caligrafados) e imagens festivas são colados nas portas.

Outra tradição importante é homenagear os antepassados. Muitas famílias visitam túmulos na véspera da celebração, fazem oferendas e reservam lugares simbólicos à mesa do jantar festivo. A refeição, chamada de "jantar de reunião", reúne várias gerações e é considerada um dos momentos mais significativos da festividade.

Crianças e idosos costumam receber dinheiro em envelopes vermelhos, conhecidos como yasui qian, símbolo de proteção, sorte e bênçãos para o novo ano.

Nas ruas, fogos de artifício e foguetes iluminam o céu — prática vista como indispensável tanto em grandes cidades quanto em áreas rurais. Também são comuns apresentações de dança do leão e do dragão, realizadas para atrair boa fortuna.

Tradições culinárias e superstições

Certos alimentos são conhecidos por atrair boa sorte durante o período festivo. Peixe simboliza prosperidade; bolinhos e rolinhos primavera representam riqueza; tangyuan (bolinhos de arroz doce) simbolizam união familiar; frutas indicam plenitude; niangao (bolo de arroz glutinoso) representa progresso financeiro e profissional; e o macarrão simboliza longevidade.

Por outro lado, algumas práticas são evitadas no primeiro dia do ano. Não se recomenda comer mingau — associado à pobreza —, usar palavras negativas, lavar cabelo ou roupas, varrer a casa ou realizar atividades como costura e bordado, pois acredita-se que isso possa "levar embora" a sorte recém-chegada.