O pesquisador brasileiro Francisco Rodrigues, da Universidade de São Paulo (USP), foi agraciado com o prêmio Friedrich Wilhelm Bessel, da Fundação Humboldt, na Alemanha por desenvolver estudos que utilizam inteligência artificial no diagnóstico de transtornos mentais. A reportagem foi publicada pela emissora alemã Deutsche Welle (DW) na quinta-feira (12).
Seus resultados indicam que algoritmos treinados com exames laboratoriais e imagens cerebrais podem identificar condições psiquiátricas com mais de 90% de acerto.
Os resultados foram publicados em renomadas revistas científicas como Nature e PLOS One. A partir de imagens de ressonância magnética, o sistema analisa padrões e mapeia alterações cerebrais associadas a transtornos como epilepsia, autismo e esquizofrenia.
"Conseguimos identificar quais regiões foram alteradas em uma pessoa com epilepsia, autismo ou esquizofrenia, por exemplo, e entender quais alterações estão relacionadas com aquele transtorno", afirma Rodrigues.
Diagnóstico e tecnologia
Hoje, o diagnóstico de transtornos mentais ainda depende da avaliação clínica e do histórico do paciente, sem marcadores biológicos como em doenças como o diabetes. Rodrigues acredita que, no futuro, exames cerebrais poderão indicar a presença de depressão ou outras condições antes do agravamento dos sintomas.
"Hoje com o procedimento tradicional, o psiquiatra não vai conseguir identificar se você vai desenvolver esquizofrenia daqui a dez anos, esse é o ponto", citou.
A pesquisa também envolve minicérebros, obtidos a partir de células do córtex cerebral de embriões animais cultivadas em laboratório. Um chip registra a atividade elétrica entre os neurônios, gerando dados que alimentam os modelos computacionais.
Apesar de não reproduzirem toda a complexidade de um cérebro humano, os organoides permitem testar como medicamentos ou intervenções alteram as redes neurais simuladas.
Trajetória Internacional
Formado em Física pela USP, Rodrigues iniciou sua trajetória na Alemanha em 2006 como aluno visitante do Instituto Max Planck. Em 2011, passou a colaborar com a professora Cristiane Thielemann, da Universidade de Ciências Aplicadas de Aschaffenburg, parceria que resultou na indicação ao prêmio Friedrich Wilhelm Bessel, da Fundação Humboldt.
Até o fim de 2026, ele seguirá para Frankfurt, onde dará continuidade às pesquisas e ministrará cursos sobre sistemas complexos e aprendizagem de máquina, ampliando o alcance internacional de seus estudos sobre inteligência artificial e saúde mental.