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Imprensa britânica faz acusações contra Brasil para "aconselhar" países ricos

The Economist afirma que, mesmo com crescimento e resultado primário próximo do equilíbrio, o Brasil enfrenta pressão fiscal causada por juros de 15%, o que eleva o custo da dívida e serve de alerta para países desenvolvidos com endividamento alto e gastos crescentes com previdência e saúde.
Imprensa britânica faz acusações contra Brasil para "aconselhar" países ricosGettyimages.ru / Dorival Moreira Lucindo/AGB Photo Library/Universal Images Group

A revista britânica The Economist afirmou, em artigo publicado nesta sexta-feira (13), que países ricos devem observar o exemplo do Brasil como um alerta fiscal. Na análise, a revista sustenta que, em cenários de alto endividamento, juros elevados podem comprometer as contas públicas, mesmo quando há crescimento econômico e controle inflacionário.

Segundo a publicação, o Brasil apresenta crescimento considerado razoável, Banco Central independente e resultado primário próximo do equilíbrio — isto é, excluindo os pagamentos de juros. A dívida líquida, equivalente a 66% do Produto Interno Bruto (PIB), é descrita como elevada para padrões emergentes, mas inferior à de economias avançadas.

O principal problema apontado é o custo da dívida. Para conter a inflação, a taxa básica de juros foi fixada em 15%, o que eleva significativamente a despesa com encargos financeiros. O texto pontua que mesmo com o orçamento primário próximo do equilíbrio, o governo deve contrair empréstimos equivalentes a cerca de 8% do PIB ao ano para arcar com os juros.

A revista afirma que o ajuste fiscal por meio de austeridade é improvável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputa a reeleição em outubro deste, ampliou gastos públicos, diz a publicação. Sem queda expressiva dos juros, a tendência é de avanço da dívida.

Em comparação, Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália mantêm custos de financiamento em níveis mais baixos, entre a faixa inferior e média de um dígito. Nesses países, o equilíbrio ou quase equilíbrio do resultado primário seria suficiente para estabilizar a dívida. No caso brasileiro, seria necessário um superávit primário de aproximadamente 5% do PIB para manter a dívida estável, caso os juros permaneçam elevados.

Fatores estruturais

A análise atribui os juros altos no Brasil a uma combinação de fatores institucionais e históricos. Embora haja independência formal do Banco Central e separação de Poderes, as instituições são descritas como frágeis, lembrando a tentativa de golpe atribuída ao ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.

A revista também destaca que a inflação no país reage de forma mais rápida a choques, reflexo do histórico de hiperinflação nas décadas de 1980 e 1990 e da crise econômica em meados dos anos 2010.

Outro ponto central é o peso das aposentadorias. O governo brasileiro destina cerca de 10% do PIB a pensões. Sem reformas, a despesa pode superar, até 2050, a de países mais ricos e envelhecidos. As aposentadorias têm proteção constitucional, incluindo a regra que vincula aumentos do salário mínimo aos benefícios pagos a aposentados.

Sinais nas economias avançadas

Para a The Economist, economias desenvolvidas apresentam sinais iniciais de "brasilificação". A publicação cita desafios institucionais nos Estados Unidos sob o presidente Donald Trump, além do aumento dos riscos inflacionários após a pandemia e das pressões sobre gastos com saúde e previdência em sociedades envelhecidas.

A revista afirma que, caso os juros subam de forma significativa, os atuais dilemas fiscais nos países ricos podem parecer limitados. O texto menciona que diversas nações buscam ampliar em 1% ou 2% do PIB os investimentos em defesa. Caso enfrentem despesas adicionais semelhantes com juros da dívida, o impacto seria mais severo.