Estigma sofrido por refugiados homens na Europa se transforma em abandono e segregação

Entidades de direitos humanos, citadas pela Al Jazeera, apontam que há uma percepção equivocada de que homens são naturalmente resilientes à vida nas ruas. Esse estigma resulta em uma oferta reduzida de serviços de apoio e abrigos dedicados a atender esse grupo social.

Homens refugiados que chegam sozinhos à Europa sofrem com preconceitos sistemáticos durante o processo de integração. De acordo com reportagem publicada pela Al Jazeera na última quarta-feira (11), esses imigrantes são frequentemente associados a ameaças à segurança ou vistos como pessoas que podem aguentar mais sofrimento que as outras.

Relatos na Alemanha indicam que jovens têm pedidos de moradia negados devido à sua nacionalidade e gênero. Além da dificuldade habitacional, eles convivem com discursos hostis que os acusam de ocupar vagas de emprego e esgotar recursos públicos.

"Sofro discriminação só por ser um homem refugiado jovem", contou à Al Jazeera o jovem identificado pelo pseudônimo "Ahmed".

"Meus pedidos de moradia são ignorados por causa do meu nome. Na sociedade, ouço aquele refrão cansativo e doloroso de que estamos tirando empregos e casas, e que o governo deveria pagar pelos seus e não por nós. Dizem que deveríamos voltar para o lugar de onde viemos. Também afirmam que somos todos iguais: perigosos. Às vezes, usam de ironia, dizendo: 'Não puxe a faca; te dou tudo o que você quiser'".

Entidades de direitos humanos apontam na reportagem que há uma percepção equivocada de que homens são naturalmente resilientes à vida nas ruas. Esse estigma resulta em uma oferta reduzida de serviços de apoio e abrigos dedicados a atender esse perfil específico.

"Estou tentando começar uma vida nova aqui, onde eu me sinta seguro. Passamos por muitas coisas horríveis nas guerras em nosso país e no caminho até aqui... [Nós] não somos realmente aceitos pela sociedade, por mais que você se esforce ao máximo", disse Ahmed. "Isso acontece só porque seu nome é Ali ou Mohammad e você é visto como uma ameaça".

Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que muitos imigrantes sofreram tortura e violência sexual ao longo das rotas de deslocamento. O conceito de que homens são imunes a vulnerabilidades ignora traumas físicos e psicológicos severos vivenciados por esse grupo.

Tentativa de ajuda

Organizações como a ONG grega Mazi foram criadas para preencher essas lacunas no auxílio humanitário. O objetivo é oferecer teto e suporte psicossocial, combatendo a ideia de que homens sozinhos não sofrerão as consequências de serem deixados sem assistência imediata.

"No sistema de asilo da Grécia, assim como em outros lugares, eles deixam de ser um 'menino vulnerável' de 17 anos para se tornarem um 'homem perigoso' de 18 anos no dia em que fazem aniversário. Isso significa: sem moradia, poucos serviços de apoio e uma percepção persistente, de todos, inclusive daqueles que administram o auxílio humanitário, de que 'ele vai ficar bem na rua por um tempo, ele é homem'. Ele não vai ficar bem na rua. É por isso que fundamos a Mazi”, afirmou Cosmo Murray, codiretor da ONG.

Refugiados afirmam na reportagem que, embora busquem se adaptar à sociedade local, o sentimento de rejeição permanece constante e a desconfiança social dificulta a inserção desses indivíduos em instituições de ensino e no mercado formal de trabalho.