
Protesto ou negócio? Show de Bad Bunny no Super Bowl divide mundo e vira campo de batalha cultural

A apresentação do cantor Bad Bunny no intervalo do Super Bowl abriu um debate internacional sobre o artista, seu talento, a forma como representou a cultura latina e o impacto político do show nos Estados Unidos, em um momento de aumento de casos de racismo, discriminação e repressão a migrantes.
No domingo (8), o porto-riquenho apresentou músicas com ritmos caribenhos, da salsa ao reggaeton, com referências críticas ao colonialismo americano. Ao encerrar o espetáculo, exibiu bandeiras de todos os países da América, destacando que o nome designa um continente, e não apenas os EUA.
O gesto, de forte simbolismo, foi interpretado como uma crítica direta ao presidente Donald Trump.
Desde então, o artista figura entre os assuntos mais comentados nas redes sociais. A performance foi criticada por Trump, elogiada pela presidente do México, Claudia Sheinbaum, e passou a mobilizar escritores, músicos, jornalistas, políticos e o público.

O vídeo da apresentação já supera 54 milhões de visualizações e está entre os mais assistidos da história do evento.
O debate se divide em duas frentes. A primeira é artística, com a repetição de críticas antigas às suas qualidades vocais: de que não se entende o que ele canta, de que o reggaeton "não é música" e de que o gênero "coisifica mulheres". Ainda assim, ele lidera as plataformas de streaming no mundo.
A segunda é política, com posições opostas: de um lado, os que elogiam o uso do palco para tratar de temas sensíveis na era Trump; de outro, os que o veem como um milionário alinhado aos interesses da indústria musical.
Críticas vs. ironias
"É sério que essa é a expressão cultural latina que queremos opor à violência bruta e machista de Donald Trump? Não sei o que dizer", afirmou o escritor argentino Martín Caparrós, acrescentando depois que, "felizmente", a América Latina não é o que Bad Bunny e o presidente dos EUA "querem fazer crer".
Me pregunto qué banda o cantante escuchan los que están ninguneando el show de Bad Bunny como acto político porque son más elevados. Qué artista nacido de barrio empobrecido, racializado, místico, mágico, no privilegiado, absolutamente no maistream, que solo suena en radios…
— Dani (@DaniMSantacruz) February 9, 2026
A escritora colombiana Carolina Sanín publicou dezenas de mensagens críticas. "Bad Bunny também é uma versão do colonialismo e é perfeitamente útil ao totalitarismo: é uma das engrenagens bem lubrificadas do sistema. É o menestrel exótico, treinado para o papel absolutamente inofensivo de aparente contradição. É impressionante como todo mundo alucina", afirmou.
Em resposta, usuários recorreram à ironia. "Muito obrigado por me avisar que Bad Bunny pertence à indústria do espetáculo e não à guerrilha urbana ou à poesia experimental; a verdade é que isso nunca teria me ocorrido, muito menos ao assistir ao show do intervalo do Super Bowl", escreveu o mexicano Federico Guzmán Rubio.
Me parece que todos tenemos que bajar dos cambios. Bad Bunny no es el Che Guevara, pero tampoco es la peor decadencia de América. Su show y su disco son un buen statement en un mundo donde el discurso político está degradadísimo, de paso moves un poco la patita. Tómense un tecito
— Vicky (@vickytedije) February 9, 2026
"Pessoal, venho de uma família de acadêmicos e parece que estou ouvindo meu tio, um professor universitário antiquado que acreditava que a cultura só existia nas altas esferas e desprezava tudo o que era popular com críticas a Bad Bunny. Curioso, os argumentos são semelhantes", afirmou o historiador Rafael Navarro.
A escritora argentina Florencia Freijo avaliou que, em um contexto em que Trump ataca, criminaliza e ridiculariza migrantes latinos, Bad Bunny "transmitiu uma mensagem de orgulho carregada de significados" como trabalho, generosidade, alegria, amor, família, sensualidade e dança como parte da identidade latina.
"Em uma alusão ao slogan (MAGA), cujo significado é tornar a América grande novamente, mas sem a América Latina, Benito nos lembra: esta é a nossa terra e não haverá uma América grande sem nós", explicou.
"Não é o Che Guevara, mas..."
Outro usuário afirmou que, embora Bad Bunny não seja Che Guevara, ele defende a independência de Porto Rico e compôs músicas sobre os apagões após um furacão. Também citou que um de seus vídeos se tornou documentário de uma jornalista porto-riquenha que denuncia a gentrificação da ilha e a expulsão de moradores de baixa renda.
Apoiadores de Trump também reagiram. "Imigrantes ilegais e prostitutas latinas fazendo twerking (...), nem uma única pessoa branca, nem tradução para o inglês (...), isso não é branco o suficiente para mim. Já nem consigo ver o Super Bowl porque os imigrantes literalmente arruinaram tudo", escreveu a ativista conservadora Laura Loomer.
Já o prefeito de Nova York,Zohran Mamdani, e a congressista Alexandria Ocasio-Cortez elogiaram o artista. A parlamentar rebateu críticas de que ele seria "um falso cidadão americano" e afirmou que, ao contrário de detratores que sonegam impostos, ele financia o acesso de crianças de baixa renda a programas de arte e esporte.


