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Protesto ou negócio? Show de Bad Bunny no Super Bowl divide mundo e vira campo de batalha cultural

O vídeo do artista bate recordes com mais de 52 milhões de visualizações no YouTube.
Protesto ou negócio? Show de Bad Bunny no Super Bowl divide mundo e vira campo de batalha culturalAP / Charlie Riedel

A apresentação do cantor Bad Bunny no intervalo do Super Bowl abriu um debate internacional sobre o artista, seu talento, a forma como representou a cultura latina e o impacto político do show nos Estados Unidos, em um momento de aumento de casos de racismo, discriminação e repressão a migrantes.

No domingo (8), o porto-riquenho apresentou músicas com ritmos caribenhos, da salsa ao reggaeton, com referências críticas ao colonialismo americano. Ao encerrar o espetáculo, exibiu bandeiras de todos os países da América, destacando que o nome designa um continente, e não apenas os EUA.

O gesto, de forte simbolismo, foi interpretado como uma crítica direta ao presidente Donald Trump.

Desde então, o artista figura entre os assuntos mais comentados nas redes sociais. A performance foi criticada por Trump, elogiada pela presidente do México, Claudia Sheinbaum, e passou a mobilizar escritores, músicos, jornalistas, políticos e o público.

O vídeo da apresentação já supera 54 milhões de visualizações e está entre os mais assistidos da história do evento.

O debate se divide em duas frentes. A primeira é artística, com a repetição de críticas antigas às suas qualidades vocais: de que não se entende o que ele canta, de que o reggaeton "não é música" e de que o gênero "coisifica mulheres". Ainda assim, ele lidera as plataformas de streaming no mundo.

A segunda é política, com posições opostas: de um lado, os que elogiam o uso do palco para tratar de temas sensíveis na era Trump; de outro, os que o veem como um milionário alinhado aos interesses da indústria musical.

Críticas vs. ironias

"É sério que essa é a expressão cultural latina que queremos opor à violência bruta e machista de Donald Trump? Não sei o que dizer", afirmou o escritor argentino Martín Caparrós, acrescentando depois que, "felizmente", a América Latina não é o que Bad Bunny e o presidente dos EUA "querem fazer crer".

A escritora colombiana Carolina Sanín publicou dezenas de mensagens críticas. "Bad Bunny também é uma versão do colonialismo e é perfeitamente útil ao totalitarismo: é uma das engrenagens bem lubrificadas do sistema. É o menestrel exótico, treinado para o papel absolutamente inofensivo de aparente contradição. É impressionante como todo mundo alucina", afirmou.

Em resposta, usuários recorreram à ironia. "Muito obrigado por me avisar que Bad Bunny pertence à indústria do espetáculo e não à guerrilha urbana ou à poesia experimental; a verdade é que isso nunca teria me ocorrido, muito menos ao assistir ao show do intervalo do Super Bowl", escreveu o mexicano Federico Guzmán Rubio.

"Pessoal, venho de uma família de acadêmicos e parece que estou ouvindo meu tio, um professor universitário antiquado que acreditava que a cultura só existia nas altas esferas e desprezava tudo o que era popular com críticas a Bad Bunny. Curioso, os argumentos são semelhantes", afirmou o historiador Rafael Navarro.

A escritora argentina Florencia Freijo avaliou que, em um contexto em que Trump ataca, criminaliza e ridiculariza migrantes latinos, Bad Bunny "transmitiu uma mensagem de orgulho carregada de significados" como trabalho, generosidade, alegria, amor, família, sensualidade e dança como parte da identidade latina.

"Em uma alusão ao slogan (MAGA), cujo significado é tornar a América grande novamente, mas sem a América Latina, Benito nos lembra: esta é a nossa terra e não haverá uma América grande sem nós", explicou.

"Não é o Che Guevara, mas..."

Outro usuário afirmou que, embora Bad Bunny não seja Che Guevara, ele defende a independência de Porto Rico e compôs músicas sobre os apagões após um furacão. Também citou que um de seus vídeos se tornou documentário de uma jornalista porto-riquenha que denuncia a gentrificação da ilha e a expulsão de moradores de baixa renda.

Apoiadores de Trump também reagiram. "Imigrantes ilegais e prostitutas latinas fazendo twerking (...), nem uma única pessoa branca, nem tradução para o inglês (...), isso não é branco o suficiente para mim. Já nem consigo ver o Super Bowl porque os imigrantes literalmente arruinaram tudo", escreveu a ativista conservadora Laura Loomer.

Já o prefeito de Nova York,Zohran Mamdani, e a congressista Alexandria Ocasio-Cortez elogiaram o artista. A parlamentar rebateu críticas de que ele seria "um falso cidadão americano" e afirmou que, ao contrário de detratores que sonegam impostos, ele financia o acesso de crianças de baixa renda a programas de arte e esporte.