Varredura na surdina: Epstein suprimiu referências na mídia à sua condenação em 2008

Correspondências do falecido criminoso sexual revelam esquema de eliminação de resultados de busca negativos associadas a seu nome.

Documentos incluídos na divulgação mais recente do caso Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos demonstram que o falecido criminoso sexual trabalhou ativamente para reparar sua reputação após condenação em 2008, limpando meios de comunicação de associações negativas a seu nome.

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Após sua prisão por aliciamento de menores de idade, Epstein empregou táticas para manipular resultados de busca nas redes e influenciar a cobertura da mídia. Esse esforço envolveu a contratação de um indivíduo identificado como Al Seckel, apontado como cunhado de sua associada e ex-companheira, Ghislaine Maxwell.

Varredura digital

Um e-mail datado de setembro de 2010 registra Seckel propondo um plano para "fazer desaparecer" informações negativas sobre Epstein das buscas do Google e intensificar conteúdo positivo. Por uma taxa de 20 mil a 25 mil dólares (entre R$ 104 mil e R$ 130 mil, aproximadamente), Seckel prometeu remover artigos desfavoráveis e suprimir novas menções negativas, chegando a redirecionar links para críticas de outras pessoas.

"A tecnologia não é divertida quando você tem os amigos certos?", escreve Seckel na correspondência.

Seckel relatou sucessos na limpeza da internet de notícias negativas, alegando ter até mesmo "hackeado" a Wikipédia, substituindo sua foto do fichamento policial e minimizando acusações de má conduta. Ele teria utilizado bots para monitorar e remover menções desfavoráveis, alertando Epstein sobre qualquer novo conteúdo negativo.

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Outra correspondência, já de dezembro do mesmo ano, documenta as reclamações de Epstein acerca do custo das operações, expressando contrariedade pelo valor crescente e indicando não ter ciência prévia de que os pagamentos seriam regulares. Seckel aponta que seus operadores estavam em uma guerra digital com o jornal americano The Daily Beast, que buscava "desfazer" a limpeza digital pela promoção de seus artigos de volta às correspondências de pesquisa.

"Passei literalmente quatro meses de trabalho ininterrupto, criatividade e meu próprio capital político para chegar até aqui", desabafa o cunhado de Maxwell. "Estávamos tentando consertar a sua bagunça. Eu não a criei. Só pensei que seria algo para ajudar. Isso NUNCA foi sobre tentar tirar dinheiro de você."

Jogadas de influência

Os documentos também revelam que Epstein e seus associados estavam preocupados com as narrativas da mídia e tentaram ativamente moldá-las, aponta reportagem do jornal britânico The Guardian. O criminoso sexual, em 2011, tentou acessar Arianna Huffington, co-fundadora do jornal americano The Huffington Post, por meio de um intermediário, a fim de investigar uma de suas acusadoras, Virginia Giuffre — aparentemente sem sucesso.

Uma empresa de relações públicas, Osborne & Partners, aconselhou Epstein em junho de 2011 a usar sua influência no meio jornalístico e político internacional, destacar empreendimentos filantrópicos, além de reforçar a necessidade da limpeza digital das buscas a seu nome.

Ao longo desse período, Epstein enfrentou desafios legais contínuos, incluindo uma ação judicial de Giuffre alegando abuso sexual envolvendo figuras proeminentes. Apesar dos esforços iniciais para evitar a acusação federal por meio de um acordo secreto, registra publicação da PBS, novas acusações de tráfico sexual foram apresentadas contra ele em 2019, levando à sua prisão e, posteriormente, ao seu suicídio em sua cela.