Promessas falsas e violência marcam trajetória de brasileiros voluntários na Ucrânia

Ex-combatentes relatam tortura, fome e salários abaixo do esperado após serem atraídos por anúncios em redes sociais; Itamaraty confirma 19 mortes e 44 desaparecidos no conflito.

Os brasileiros que se alistaram como mercenários para lutar ao lado das forças ucranianas relatam experiências de violência e arrependimento após quatro anos de conflito, segundo reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, no domingo (8). Atraídos por promessas de altos salários e vídeos de recrutamento na internet, muitos encontraram uma realidade de privações e riscos extremos no front.

Um dos ex-combatentes afirmou que foi convencido por ofertas de salário de ''50 mil'', que imaginou serem em reais. Posteriormente, descobriu que se tratava de valores em grívnias, moeda local, equivalentes a pouco mais de R$ 5 mil. "O que vem na cabeça é real", afirmou, citado pelo veículo.

Outros voluntários relataram que a falta de experiência militar não impediu o envio para áreas de bombardeio, onde enfrentaram escassez de alimentos e ferimentos graves.

Tortura

Relatos divulgados pelo canal indicam a ocorrência de tortura contra aqueles que tentam abandonar as frentes de batalha. 

"Quem tenta fugir, se for pego, é preso e torturado", disse um outro brasilerio ouvido pelo veículo, que conseguiu escapar.

Fome

Outro relato é o de um combatente que afirmou ter lutado contra soldados ucranianos durante uma tentativa de fuga. À emissora, ele declarou ter perdido 28 quilos, após passar dias sem alimentação adequada.

"Cheguei a ficar três dias apenas com o tempero do macarrão instantâneo", relatou.

Mortes e desaparecimentos

O Ministério das Relações Exteriores contabiliza 19 mortes de brasileiros desde o início da operação militar especial. Além dos óbitos confirmados, há 44 cidadãos desaparecidos, o que mantém famílias no Brasil sem notícias sobre o paradeiro de seus parentes por meses.

Alguns brasileiros ainda permanecem em cidades estratégicas, como Zaporozhie, atuando em forças especiais. Aqueles que retornaram ao Brasil buscam retomar a rotina, mas descrevem dificuldades para lidar com sequelas psicológicas e traumas vividos nas trincheiras.

O governo brasileiro mantém a recomendação para que cidadãos não viajem à região, informando que segue prestando assistência às famílias das vítimas e desaparecidos.