A revolução que ocorreu no Irã em 1979 foi um dos eventos mais importantes do Oriente Médio no século XX que efetuou muita influência no clima político na região. Esse acontecimento significou a derrubada do poder do monarca Xá Reza Pahlevi e estabelecimento do sistema político de uma república teocrática baseada nos princípios do islã xiita.
A Revolução que contou com amplo apoio popular foi liderada pela figura do aiatolá Ruhollah Khomeini que liderou o país por 10 anos e transmitiu poder ao Ali Khamenei, que está no poder até agora.
O dia da vitória da Revolução é dia 11 de fevereiro quando unidades das Forças Armadas declaram neutralidade, recusando-se a reprimir os manifestantes. Como resultado, no Irã foi criado um sistema político especial que governa o país desde então.
Causas e dinâmica da Revolução
Nos anos 1970, o Irã estava vivendo uma monarquia absolutista autoritária, rumando para o totalitarismo, centrada na figura do xá Mohammad Reza Pahlavi, que conduzia um programa de "modernização" e de "ocidentalização" apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, principais aliados externos do regime.
Esse alinhamento com o Ocidente gerava cada vez mais descontentamento. Em 1953, o então primeiro-ministro do Irã Mohammad Mossadegh foi derrubado em um golpe de Estado articulado com apoio da CIA e do MI6, o serviço de inteligência britânico, após nacionalizar a indústria do petróleo.
A operação estabeleceu e fortaleceu o poder do xá, mas deixou como legado um sentimento duradouro de ingerência estrangeira e de frustração com a interrupção de um projeto soberano e democrático.
Reformas econômicas e sociais — como a dita "Revolução Branca" de 1963 — ampliaram a urbanização e o consumo, mas também provocaram deslocamento de populações rurais, crescimento de periferias urbanas e a percepção de que os benefícios se concentravam em uma elite ligada ao palácio e ao setor petrolífero.
A polícia política SAVAK vigiava, prendia e torturava opositores, criando um clima de medo e fechamento do sistema político, o que impedia a canalização institucional do descontentamento.
Ao mesmo tempo, amplos setores da sociedade – do clero xiita a estudantes de esquerda – criticavam a presença intensa de empresas, militares e conselheiros ocidentais, vista como ingerência estrangeira e ameaça à identidade islâmica e nacional do Irã.
A corte era percebida como distante, luxuosa e corrupta, em contraste com as dificuldades econômicas de boa parte da população, especialmente após choques do mercado de petróleo e aumento da inflação.
Entre 1978 e o início de 1979, o ciclo de revoltas se acelerou. Manifestações em cidades religiosas como Qom, desencadeadas por ataques oficiais do regime a Khomeini, foram duramente reprimidas, mas a repressão só aumentou o número de participantes nos protestos seguintes.
Episódios traumáticos com centenas de mortos, foram atribuídos ao regime, alimentando a percepção de que o sistema era autoritário e moralmente ilegítimo.
Em setembro de 1978, ocorreu a "Sexta‑feira Negra", quando forças de segurança abriram fogo contra manifestantes na Praça Jaleh, em Teerã, marcou um ponto de não retorno: a confiança de setores moderados no xá ruiu e greves gerais paralisaram a economia e minaram a capacidade de governo.
No início de 1979, diante da escalada dos protestos e da erosão do apoio internacional, o xá fugiu do país alegando que estava indo fazer um "tratamento médico" e não retornou. Em fevereiro, Ruhollah Khomeini, que estava exilado na França, regressou ao Irã no voo AF 4721, em um Boeing 747 da Air France.
Em meio a uma recepção massiva, simbolizando a transferência de legitimidade da monarquia para a liderança religiosa revolucionária. O governo provisório nomeado pelo xá foi rapidamente esvaziado, e, em 11 de fevereiro, setores das Forças Armadas declararam neutralidade, permitindo o colapso definitivo do antigo regime e a tomada de poder por órgãos revolucionários alinhados a Khomeini.
Formação da República Islâmica e o Velayat‑e Faqih
Após a queda da monarquia, a disputa principal passou a ser sobre a forma do novo Estado. Em março de 1979, um referendo submeteu à população a questão da criação de uma República Islâmica.
A proposta foi aprovada por ampla maioria, segundo os números oficiais. Em seguida, uma Assembleia de Especialistas redigiu uma nova Constituição, que seria ratificada ainda em 1979, institucionalizando a visão de Khomeini sobre o papel do Islã na política.
A Constituição estabeleceu uma estrutura híbrida: de um lado, instituições republicanas como a presidência, o parlamento (Majles) e assembleias locais, todas sujeitas a eleições periódicas; de outro, um conjunto de órgãos teocráticos com poder de supervisão e veto.
No topo dessa arquitetura está o Líder Supremo, autoridade máxima do sistema, cuja legitimidade se baseia tanto na competência religiosa quanto na capacidade de proteger os interesses do Islã e da revolução.
Ele nomeia os chefes do Judiciário, os comandantes das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária, além de indicar os membros do Conselho dos Guardiães, que revisa leis e candidatos.
O conceito que articula essa estrutura é o Velayat‑e Faqih ("tutela do jurista islâmico"). Formulado por Khomeini, esse princípio sustenta que, na ausência do 12º Imã – figura messiânica central para o xiismo –, a comunidade não pode ficar sem um guardião que aplique a lei divina na esfera política.
Esse guardião deve ser um faqih (especialista nas leis islâmicas) reconhecido por sua erudição e probidade, que assume a tutela sobre o Estado para assegurar que as leis humanas não contradigam a sharia. Significa que a soberania popular é limitada pela soberania da lei islâmica, interpretada pela liderança clerical.
Funcionamento do sistema na atualidade
Na República Islâmica, o sistema político pode ser descrito como uma estrutura híbrida em que mecanismos eleitorais republicanos coexistem com um forte controle teocrático e securitário.
Presidentes e parlamentares são eleitos por sufrágio universal, mas sua margem de atuação é constantemente delimitada pelas decisões e orientações do Líder Supremo e dos órgãos sob sua influência.
Em momentos de crise ou contestação interna, decisões estratégicas sobre repressão, concessões ou negociações tendem a passar pelo círculo em torno da liderança clerical e dos comandos da Guarda Revolucionária.
A Guarda da Revolução
A Guarda Revolucionária Iraniana –, oficialmente Corpo de Guardas da Revolução Islâmica –, criada para proteger a revolução de ameaças internas e externas, tornou-se um dos atores mais poderosos no Estado.
Ela controla unidades militares de elite, forças especiais de projeção externa e uma vasta rede de empresas e fundações que atuam em setores como construção, energia e telecomunicações.
Essa presença econômica amplia sua influência política e lhe garante recursos para apoiar grupos aliados no exterior, consolidando o Irã como potência regional com capacidade de projeção além de suas fronteiras.