
Arquivos Epstein: o que são e por que continuam assombrando as elites

Poucas expressões adquiriram tanta carga simbólica nos últimos anos quanto os "arquivos Epstein". Sob esse rótulo, agrupam-se milhares de documentos e evidências que expõem falhas sistêmicas no controle financeiro, na prestação de contas das elites ocidentais e na proteção de menores de idade, que se tornaram alvos fáceis de abusos sexuais diante da total impunidade dos responsáveis por esses crimes.
O caso do magnata financista Jeffrey Epstein, acusado de tráfico sexual de menores para os mais poderosos e ricos do mundo, não foi encerrado com sua morte em sua cela de uma penitenciária nova-iorquina em agosto de 2019.

À medida que a Justiça estadunidense publicava e-mails, fotos e vídeos relacionados às escandalosas práticas de Epstein e aos convidados de seu "paraíso pedófilo" em sua ilha particular, o conjunto de documentos acumulados tornou-se um espelho incômodo sobre como funcionam o poder, o dinheiro e a impunidade.

A origem dos arquivos Epstein remonta a investigações na Flórida entre 2005 e 2008, que culminaram em um controverso acordo judicial. Anos depois, após a detenção federal do financeiro em Nova York em 6 de julho de 2019 e sua morte em 10 de agosto do mesmo ano, as autoridades apreenderam diversos materiais em suas propriedades.
A isso somaram-se processos civis contra colaboradores, entre eles os que envolveram a ex-parceira de Epstein, Ghislaine Maxwell, declarada culpada por um júri em dezembro de 2021 e sentenciada a 20 anos de prisão em junho de 2022.

Assim, os arquivos Epstein passaram a englobar um conjunto de materiais produzidos e coletados em diversos processos penais e civis, bem como em investigações jornalísticas: processos judiciais, depoimentos sob juramento, comunicações eletrônicas, registros logísticos com dados sobre voos privados, listas de visitas a propriedades e agendas.

Estes dados permitiram reconstruir padrões de movimento e o alcance dos laços sociais de Epstein, embora nem todos equivalham, por si sós, a provas de crime. Desde o início da divulgação pública dos arquivos Epstein, quando em janeiro de 2024 foram desclassificados cerca de 40 documentos judiciais, as autoridades dos Estados Unidos reforçam que a mera aparição de um nome em uma agenda ou registro não evidencia participação nos crimes.
Em 2025, pouco antes do Natal, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou dezenas de milhares de páginas de documentos, que incluíam fotos, transcrições de entrevistas, registros de chamadas e registros judiciais. Muitos deles já eram públicos ou estavam fortemente censurados.
A última leva de documentos relacionados ao caso de Epstein foi divulgada na última sexta-feira (30). Após descumprir o prazo de 19 de dezembro estabelecido pelo Congresso para tornar públicos todos os arquivos, o Departamento de Justiça finalmente compartilhou cerca de 3,5 milhões de páginas que lançaram mais luz sobre as atrocidades cometidas pelo magnata e suas influentes amizades.

Além de Epstein e Maxwell, os promotores federais nunca acusaram mais ninguém em relação ao abuso de menores, mas uma de suas vítimas, Virginia Giuffre, acusou Epstein de ter feito arranjos para que ela tivesse encontros sexuais em sua adolescência com diversos políticos, magnatas, acadêmicos de destaque e outras figuras. Todos os mencionados por Giuffre negaram as acusações.
Entre as pessoas acusadas estava o então príncipe Andrew da Reino Unido, que foi destituído de seus títulos reais após o escândalo. Andrew negou ter tido relações sexuais com Giuffre, mas resolveu o processo mediante uma quantia não revelada. A mulher cometeu suicídio no ano passado, aos 41 anos.
Os arquivos revelam como Epstein cultivou meticulosamente sua rede entre os poderosos, inclusive após sua condenação por crimes sexuais em 2008, circulando entre figuras de renome. De magnatas da tecnologia a poderosos corretores de Wall Street e dignitários estrangeiros, no enorme conjunto de documentos aparecem membros da realeza e muitas outras personalidades.
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Até o momento, o impacto da divulgação dos arquivos tem sido principalmente reputacional. Enquanto isso, restam perguntas sobre a rede de cúmplices de Epstein, os mecanismos logísticos e as falhas de supervisão dos sistemas judicial, regulatório e corporativo que permitiram que os abusos persistissem.
A pergunta de fundo é incômoda: quais sinais foram ignorados e por quê? Sobretudo, levando em conta que bancos, empresas de gestão patrimonial, operadores de aviação privada e organizações sem fins lucrativos dispõem de protocolos de alerta antecipado e implementam práticas de "conheça seu cliente" (KYC) e monitoramento de transações.


