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Operação Bisturi: relembre o caso de tráfico de órgãos de brasileiros por parte de um ex-oficial do Exército de Israel

Rede aliciava doadores por até R$ 5 mil no Brasil e cobrava até R$ 789 mil por transplante para israelenses.
Operação Bisturi: relembre o caso de tráfico de órgãos de brasileiros por parte de um ex-oficial do Exército de Israel

Uma das investigações mais impactantes da Polícia Federal nas últimas décadas expôs um esquema transnacional de tráfico de órgãos com ramificações no Brasil, África do Sul e Israel. A "Operação Bisturi", deflagrada em 2003, desarticulou uma rede criminosa que explorava brasileiros em situação de vulnerabilidade social, aliciando moradores de comunidades pobres de Pernambuco com promessas de pagamento em troca de rins.

No centro da operação estava Gedalya Tauber Gady, ex-oficial do Exército de Israel, que atuava como líder operacional e chefe financeiro do esquema no Brasil. Segundo a investigação, Tauber contava com o apoio de cúmplices como o capitão da reserva da Polícia Militar Ivan Bonifácio da Silva, responsável pelo recrutamento dos doadores, e da advogada Terezinha Medeiros, esposa de Tauber, que cuidava dos depósitos financeiros do esquema.

As vítimas recebiam entre R$ 5 mil e R$ 30 mil pela venda de um rim. Os receptores, majoritariamente cidadãos israelenses, pagavam até US$ 150 mil por cirurgia (aproximadamente R$ 790 mil). Os transplantes ilegais ocorriam em um hospital na cidade de Durban, na África do Sul. Autoridades locais prenderam ao menos 20 médicos e enfermeiros envolvidos nos procedimentos.

Além do aliciamento de doadores no Brasil e das cirurgias na África do Sul, a terceira ponta da rede funcionava em Israel. Nesse núcleo, pacientes eram direcionados ao esquema e havia fraudes no sistema de saúde do país. Duas pessoas foram presas em Israel por esse motivo.

Durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Órgãos, em 2004, Gedalya Tauber declarou que o governo de Israel "pagava pelos transplantes" realizados fora do país e que isso fazia parte de uma "política do governo".

Segundo relatos atribuídos a Tauber, um artigo de revista médica de Israel indicaria que o governo pagava até US$ 80.000 por transplante (aproximadamente R$ 420 mil) — informação não confirmada oficialmente.

O presidente da CPI classificou a denúncia como "grave" e solicitou um pronunciamento oficial, que nunca foi encontrado nos registros públicos.

Inicialmente o ex-oficial afirmou estar patrocinado pelo governo de Israel, mas depois negou a declaração durante a CPI.

Tauber foi condenado no Brasil a 11 anos e 9 meses de prisão, pena posteriormente reduzida para 8 anos e 9 meses. Em 2009, já em regime semiaberto, obteve autorização para visitar a mãe doente em Israel e não retornou. Um mandado de prisão internacional foi emitido pela Interpol. Somente em 2013 ele foi localizado e detido em Roma, na Itália, sendo extraditado para o Brasil no ano seguinte. Cumpriu o restante da pena até 2018.

O caso expôs fragilidades no sistema de fiscalização de transplantes no Brasil e no mundo, além de revelar como redes criminosas internacionais se aproveitam de populações vulneráveis e da demanda global por transplantes renais.