Gigante de investimentos canadense defende que Brasil explore recursos de energia nuclear

Diretor do CDPQ na América Latina afirmou que é preciso "exorcizar" a imagem negativa da energia nuclear.

O fundo de pensão canadense CDPQ, que administra US$ 350 bilhões (R$ 1.84 trilhão) em ativos globalmente, reafirmou seu compromisso com o Brasil e defendeu o aproveitamento do potencial do País no setor de energia nuclear. A declaração foi dada por Eduardo Farhat, managing director do CDPQ para a América Latina, em entrevista ao Brazil Journal, publicada nesta segunda-feira (2).

"Eu acho que se criou uma aura negativa [sobre a energia nuclear] no Brasil, que tem que ser um pouco exorcizada", disse Farhat, ao destacar as reservas de urânio brasileiras como um ativo estratégico ainda pouco explorado.

Para o executivo, é preciso rever a estrutura atual e abandonar a visão de que esse tipo de geração de energia deve ser restrito ao controle estatal. "É preciso acabar com aquela visão de que energia nuclear tem que ser um monopólio estatal — que eu acho antiquada — porque 'vai fazer uma bomba atômica'". 

Segundo ele, tecnologias mais recentes permitem operar usinas nucleares com segurança e inteligência, abrindo espaço para uma matriz energética mais diversificada. Farhat citou o exemplo da França como referência positiva e mencionou o impacto da decisão da Alemanha de desativar suas usinas, o que aumentou a dependência do gás russo.

O CDPQ anunciou no ano passado o investimento de £ 1,7 bilhão (R$ 11.30 bilhão) por uma participação de 20% na usina nuclear Sizewell C, no Reino Unido, com capacidade de 3,2 GW. Foi o primeiro movimento do fundo nesse segmento, considerado estratégico para o futuro energético global.

Com presença em centros financeiros como Nova York, Montreal, Londres, Paris, Mumbai, Singapura e Sydney, o CDPQ busca reduzir sua exposição aos Estados Unidos e aposta na diversificação geográfica. O Brasil, segundo Farhat, é um destino ideal nesse cenário.

"O Brasil é um bom lugar para diversificar porque é pouco correlacionado com outras economias. O comércio exterior do Brasil é menos de 20% do PIB — às vezes 15%. Quando você compara com o México, é 85% com os EUA", explicou. 

Apesar das eleições presidenciais previstas para outubro, o fundo mantém seu plano de investir de US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões por ano no Brasil até 2030 (cerca de R$ 5,26 bilhões a R$ 10,52 bilhões). "Se aparecerem mais oportunidades, temos tamanho para fazer investimentos de até US$ 5 bilhões em um ano (cerca de R$ 26,3 bilhões)", afirmou.

O executivo reforçou que o principal critério do CDPQ são ambientes com segurança jurídica e estabilidade regulatória. "O que mata investimento é atacar regulação. Em alguns lugares onde vimos isso acontecer, o custo é catastrófico: terra arrasada por 20 ou 30 anos". 

O fundo já investe no setor elétrico brasileiro e avalia oportunidades em infraestrutura, incluindo transporte e saneamento. Em 2025, desembolsou R$ 9,4 bilhões pelos ativos de transmissão da Equatorial. No entanto, ainda não encontrou projetos rodoviários com escala suficiente para justificar a entrada no setor. "Para fazer sentido, tem que ter um tamanho mínimo: algo como US$ 600 milhões a US$ 1 bilhão de alocação (entre R$ 3,15 bilhões e R$ 5,26 bilhões)".