A política hostil dos Estados Unidos em relação ao Irã responde a uma combinação de múltiplos fatores, afirmou nesta quinta-feira (29) o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov. Em entrevista à mídia turca, ele foi questionado se os motivos eram o programa nuclear iraniano, o equilíbrio de poder regional ou uma estratégia mais ampla para conter a China e a Rússia.
"Tudo isso está interligado. Geopoliticamente, mesmo com Joe Biden, os Estados Unidos começaram a falar não apenas de um 'eixo do mal', mas de um 'eixo' de Estados que realmente representam uma ameaça ao domínio ocidental. Isso incluía a Rússia, a China, o Irã, a República Popular Democrática da Coreia e, às vezes, até mesmo a Belarus como nossa aliada", declarou Lavrov.
Ele acrescentou que fatores econômicos e energéticos também influenciam essa política hostil. Lavrov lembrou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao iniciar a operação ilegal contra a Venezuela e sequestrar o presidente Nicolás Maduro, "declarou explicitamente que os norte-americanos precisavam do petróleo venezuelano".
"O petróleo iraniano vem de um país que está entre os principais produtores desse produto. Estou praticamente certo de que os norte-americanos também prefeririam controlar esses fluxos de petróleo. Além disso, ao contrário da Venezuela, que se encontra em mar aberto, [o Irã] conta com o estreito de Ormuz, o que lhe confere suas próprias sutilezas geopolíticas para a segurança das rotas petrolíferas. Isso também está presente, dados os interesses declarados oficial e abertamente pela administração Trump", detalhou Lavrov.
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Rússia como mediadora
Além disso, o ministro das Relações Exteriores destacou que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, "nunca escondeu que o Irã representa uma ameaça existencial para Israel". Lavrov reiterou que a Rússia deseja atuar como mediadora na região.
"Mantemos boas relações com Israel e o Irã e sempre oferecemos nossos bons ofícios para ajudar a acalmar essa situação. Há pouco mais de dez anos, em 2015, a Rússia desempenhou um papel fundamental para chegar a um acordo sobre o programa nuclear iraniano, incluindo a exportação para o nosso país do excesso de urânio enriquecido acima da quantidade acordada para a República Islâmica. Agora estamos prontos para fazer algo semelhante. Os israelenses, iranianos e americanos sabem disso", disse ele.
"Ficaríamos felizes em ajudar a evitar outra escalada da situação, como ocorreu durante a 'guerra dos 12 dias' no verão passado, quando instalações nucleares sob o controle da Agência Internacional de Energia Atômica foram bombardeadas", acrescentou.
Lavrov questionou o fato de a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) não ter se pronunciado sobre "essa flagrante violação do seu Estatuto e do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares". "Felizmente, evitou-se uma catástrofe, uma vez que as reservas de material nuclear legítimo, não proibidas pelo Tratado de Não Proliferação, representam uma ameaça potencial se forem atacadas com munições especiais que penetram profundamente no solo e podem penetrar o concreto a dezenas de metros", afirmou o ministro.
"Espero que prevaleça o bom senso, embora neste momento se fale muito da inevitabilidade de outro ataque contra o Irã. Ouvi dizer que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, também pediu para evitar o pior e que a Turquia, tal como a Rússia, está disposta a mediar. Temos opiniões semelhantes sobre este assunto", resumiu.
Tensão entre EUA e Irã
- Nesta quarta-feira (28), Trump declarou que, "assim como na Venezuela", a Marinha dos Estados Unidos "está pronta, disposta e capacitada para cumprir rapidamente sua missão, com rapidez e violência, se necessário". No entanto, ele se mostrou confiante de que Teerã se sentará "rapidamente" para negociar "um acordo justo, equitativo e sem armas nucleares".
- O Irã advertiu que qualquer ação militar contra ele "será considerada o início de uma guerra", ao mesmo tempo em que afirmou que suas Forças Armadas "estão preparadas, com o dedo no gatilho, para responder de forma imediata e contundente a qualquer agressão". Paralelamente, expressou sua disposição de manter um "diálogo baseado no respeito e nos interesses mútuos".