Em entrevista à imprensa turca, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, comentou declarações de líderes europeus sobre a possibilidade de uma "terceira guerra mundial" com a Rússia e um eventual cenário de desintegração da OTAN.
O chanceler afirmou que são "os países bálticos e outros ativistas, sobretudo aqueles que agora chegaram ao poder na Alemanha, e também os franceses" que, junto do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estariam exagerando a narrativa da "preparação" para uma Terceira Guerra Mundial supostamente iniciada pela Rússia. Segundo ele, "eles nem se dão ao trabalho de inventar argumentos".
"Onde está a lógica?"
Lavrov disse que autoridades e veículos ocidentais descrevem a condução da operação militar russa de forma depreciativa e chegam a demonstrar satisfação com o que classificam como "avanço lento" das forças de Moscou.
Ele disse ter lido análises que apontam dificuldades econômicas sustentando que a "economia russa não aguentaria o conflito", além de avaliações de que o avanço no front não atenderia às expectativas do Kremlin.
Segundo o chanceler, "são constantemente minimizadas as ações do exército russo" durante a operação militar que visa libertar "terras nas quais, historicamente, os russos vivem há séculos" e onde foram "transformados em párias por lei, tendo todos os seus direitos proibidos".
Ele afirmou que essas avaliações são seguidas, sem transição, por declarações de que a Rússia atacaria a OTAN em poucos anos. Lavrov apontou que as análises destacam a superioridade demográfica e industrial da aliança e afirmam que ela "darão uma lição" aos russos. "Cadê a lógica?", questionou.
Lavrov afirmou que há uma contradição entre sustentar que a Rússia não conseguiria “conquistar” a Ucrânia e, ao mesmo tempo, dizer que Moscou acabaria com o país e avançaria sobre a Europa.
Segundo ele, "as elites que, como se costuma dizer agora, promovem esses discursos, não veem outra forma de mobilizar seu eleitorado para manter o poder", evitando tratar de problemas socioeconômicos internos.
Políticas "infrutíferas e fracassadas" do Ocidente
Lavrov citou como exemplo declarações da presidente da Comissão Europeia de que a União Europeia pretende eliminar até 2027 a dependência de combustíveis russos. Questionou os custos da substituição pelo gás natural liquefeito dos Estados Unidos.
“Alguém perguntará: a que preço? Quanto pagam agora, estimados senhores alemães e outros europeus, pelo gás natural liquefeito americano que, como exigido por Washington, substituíram o gás russo transportado por gasoduto e também o gás liquefeito?”, afirmou.
Segundo ele, apenas figuras como a copresidente do partido Alternativa para a Alemanha, Alice Weidel, levantam esse debate no Parlamento. Lavrov também citou os gasodutos Nord Stream, afirmando que eles garantiram por décadas energia barata à Alemanha e sustentaram o bem-estar do país.
"Portanto, no que diz respeito à terceira guerra mundial, não devemos nos dirigir a nós, mas àqueles que carecem da imaginação necessária para justificar, de alguma forma, sua permanência no poder, totalmente infrutífera e fracassada", concluiu.
Sobre a desintegração da OTAN: "É problema deles"
Sobre divergências internas na aliança, Lavrov afirmou: "É problema deles. Não nos preocupa de forma alguma a possibilidade da OTAN se desintegrar. A Aliança é um atavismo, um vestígio de uma época passada”.
Segundo o chanceler, a organização foi criada para conter a União Soviética e seus aliados geopolíticos e chegou a ser considerada irrelevante mesmo no Ocidente, que defendia maior cooperação no âmbito da OSCE. Disse, no entanto, que prevaleceu a visão de manter a aliança, atribuindo-lhe novas funções.
Para Lavrov, os países membros decidiram que a razão de ser da OTAN passou a ser o controle do espaço geopolítico pós-soviético. Ele afirmou que os países bálticos foram incorporados à aliança mesmo sem atender aos critérios formais de adesão à OTAN ou à União Europeia.
Segundo o ministro, à época, Moscou questionou Alemanha, França e Estados Unidos sobre a ampliação e ouviu como resposta que esses países temiam uma ocupação russa em razão de sua história com a URSS.
Lavrov disse considerar essa leitura equivocada e afirmou que ela reduz a realidade a uma visão "preto e branco", ao ignorar que havia forças políticas, inclusive nos países bálticos, que viam na União Soviética um pilar para garantir sua segurança e estabilidade.