Em um contexto de crescente tensão com o Irã, os Estados Unidos reforçaram sua presença militar no Oriente Médio com o porta-aviões USS Abraham Lincoln e seu grupo de combate, bem como outras armas poderosas. O presidente Donald Trump ameaçou, em várias ocasiões, ao falar sobre uma "maravilhosa armada" que se dirige à nação persa.
Enquanto isso, a República Islâmica afirma que as forças do país estão prontas para responder de forma imediata e contundente a qualquer agressão.
Militares a caminho
"Temos uma grande armada indo para lá, e vamos ver. Espero que não tenhamos que usá-la", disse ele esta semana.
Além disso, o presidente declarou na quarta-feira (28) que, "assim como com a Venezuela", a frota "está pronta, disposta e capacitada para cumprir rapidamente sua missão, com rapidez e violência, se necessário". O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, também afirmou perante o Senado que Washington não descarta uma operação militar preventiva contra o Irã.
"O presidente [Donald Trump] sempre se reserva à opção defensiva preventiva", afirmou. "Em essência, se tivermos indícios de que, de fato, eles vão atacar nossas tropas na região, [agiremos] para defender nosso pessoal na região", explicou.
Resposta do Irã
Por sua vez, Teerã advertiu que qualquer ação militar contra o país "será considerada o início de uma guerra", ao mesmo tempo em que afirmou que suas Forças Armadas "estão preparadas, com o dedo no gatilho, para responder de forma imediata e contundente a qualquer agressão".
O general Mohammad Akbarzadeh, subcomandante político da Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), afirmou que "o inimigo não ousa atacar militarmente o Irã". Nesse sentido, ele destacou que o Irã mantém um "controle inteligente" sobre o estreito de Ormuz, tanto no espaço aéreo quanto na superfície marítima, e afirmou que não é mais necessário recorrer à minagem tradicional para garantir a segurança.
Akbarzadeh destacou que essa rota estratégica é fundamental para a segurança energética, alimentar e comercial de grande parte do mundo, e atribuiu sua proteção aos "soldados desse sistema". Ao se referir aos movimentos militares dos Estados Unidos na região, o general comentou que "alguns dizem que os americanos querem vir com navios ou aviões" e respondeu de forma desafiadora: "Que digam onde, estamos à disposição".
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima de enorme importância, localizada entre o Irã e Omã, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. É considerado um dos principais "pontos de estrangulamento" energético do planeta, já que por lá transita aproximadamente 20% do petróleo mundial.
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Reforço militar
O portal TWZ informou na quarta-feira (28) que os EUA incorporaram novas armas de última geração às suas forças no Oriente Médio, entre elas o contratorpedeiro USS Delbert D. Black e um avião de vigilância eletrônica RC-135V Rivet Joint. A mídia explica que agora a Marinha dos EUA conta com 10 navios de guerra na área de responsabilidade do Comando Central (CENTCOM), incluindo o porta-aviões Abraham Lincoln e três contratorpedeiros da classe Arleigh Burke, que formam um destacamento semelhante ao do Grupo de Apoio da Frota Gerald R. Ford no Caribe antes do ataque lançado contra a Venezuela no início deste mês.
Por sua vez, as mídias ocidentais afirmam, citando suas próprias fontes, que os alvos seriam os líderes do país persa e os funcionários de segurança que Washington considera responsáveis pelas mortes nos recentes protestos, além de instalações nucleares e governamentais.
Na opinião de vários especialistas, a probabilidade de os Estados Unidos acabarem lançando um novo ataque contra o Irã é muito alta. O pesquisador do Centro de Estudos Árabes e Islâmicos do Instituto de Orientalismo da Academia de Ciências da Rússia e especialista do Clube Valdai, Grigory Lukianov, considera que os preparativos militares abertos de Washington dificilmente podem ser interpretados como um simples gesto de pressão, dada sua magnitude e seu custo.
Um golpe 'devastador'
Segundo Lukianov, tudo indica que está sendo considerado um golpe "poderoso e devastador", dirigido em primeiro lugar contra os locais onde se encontra a cúpula militar e política da República Islâmica. O objetivo final, sublinha, seria "destruir a base do regime político existente".
"Donald Trump está convencido de que o centro de tomada de decisões no Irã é o aiatolá Ali Khamenei e seu entorno, e tentará isolá-los ou eliminá-los fisicamente. Ao contrário do caso venezuelano, Washington não busca um julgamento contra o aiatolá: basta-lhe sua eliminação", explica Lukianov. Por essa razão, acrescenta, contra o Irã "não atuam forças de operações especiais, como no caso da Venezuela, mas as Forças Armadas, que possivelmente recorrerão a ataques com mísseis e bombas".
Lukianov enfatiza que Trump não busca uma simples mudança no comportamento iraniano, mas "a destruição do atual regime político". Quando o presidente norte-americano fala em uma "nova negociação" com Teerã, na prática exige uma "capitulação incondicional": o abandono total não apenas do programa nuclear, mas também da política de defesa externa, acompanhado do desmantelamento do poder vigente.
O aparente apelo de Trump para sentar-se à mesa de negociações com o Irã, observa Lukianov, não é dirigido tanto à atual liderança quanto a seus possíveis sucessores.
Essa abordagem, no entanto, está longe de ser realista, alertam outros especialistas. Na opinião do cientista político Nikolay Sukhov, uma agressão militar dos Estados Unidos dificilmente resultaria em uma "mudança de regime", muito menos na instalação de um governo dócil aos interesses de Washington. "O Irã não é de forma alguma a Venezuela", ele ressalta, explicando que "substituir o aiatolá e o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica" não será possível.
Risco de caos regional
Sukhov considera mais provável que a queda violenta do governo existente provoque um conflito entre diversas facções e centros de poder, tanto dentro do próprio país como nas suas fronteiras, "incluindo o vizinho Iraque". Este cenário, adverte, poderia desencadear um processo de desintegração interna: o caos "literalmente dilaceraria o Irã" e causaria um enorme dano a todo o ambiente geopolítico, desde o Cáucaso até as monarquias árabes do Golfo Pérsico, além de um forte impacto macroeconômico sobre o mercado mundial de petróleo.
'Pequena guerra vitoriosa'
A dimensão interna da política americana também alimenta a tentação de recorrer à força. O ex-diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Michael Allen, declarou em entrevista à Fox News que, no contexto dos protestos no Irã, Trump terá que empreender algum tipo de ação militar, depois de ter colocado em jogo "o prestígio norte-americano".
Na mesma linha, o analista político Pavel Shipilin, em declarações à emissora pública russa Radio Rossii, interpreta a possível operação contra o Irã como uma forma de desviar a atenção dos problemas internos dos Estados Unidos. Segundo Shipilin, "o presidente precisa de uma pequena guerra vitoriosa" que lhe permita "distrair seus oponentes, desviando o foco dos conflitos internos para o plano externo". Nesse esquema, conclui ele, o Irã se apresenta, do ponto de vista de Trump, como um alvo "muito adequado" para tal demonstração de força, pelo que a possibilidade de ataques não pode ser descartada.
Condições dos EUA para chegar a um acordo
Apesar das previsões sombrias dos especialistas, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em entrevista à Axios que a diplomacia continua sendo uma opção, já que Teerã deseja chegar a um acordo com Washington.
Segundo relatos, qualquer acordo deveria incluir:
- A retirada de todo o urânio enriquecido do Irã;
- Uma limitação do arsenal de mísseis de longo alcance do país persa;
- Uma mudança na política iraniana de apoio aos seus aliados na região:
- A proibição do enriquecimento independente de urânio no país.
A Axios indicou que as autoridades iranianas anunciaram a sua vontade de dialogar, embora não tenham demonstrado qualquer disposição para aceitar essas condições.
Reação internacional
Diante da crescente incerteza, os principais aliados dos EUA se recusam a ajudá-los em um eventual ataque contra o Irã.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) descartaram permitir o uso de seu espaço aéreo e território para uma possível ofensiva militar americana contra seu vizinho. O Ministério das Relações Exteriores dos EAU enfatizou que "o diálogo, a distensão, o respeito ao direito internacional e à soberania estatal constituem as bases mais eficazes para lidar com as crises atuais" e ressaltou o compromisso de resolver as disputas por meios diplomáticos.
Outras capitais importantes do mundo também se pronunciaram. Pequim comentou: "A China espera que o governo e o povo iranianos possam superar as dificuldades atuais e manter a estabilidade nacional". Além disso, enfatizou que a nação "se opõe firmemente à interferência nos assuntos internos de outros países" e "ao uso ou ameaça do uso da força nas relações internacionais".
A Rússia, por sua vez, pediu moderação e que se evite o uso da força na situação em torno do Irã. "Qualquer ação de força só pode criar caos na região e ter consequências muito perigosas", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.