UE diz que cumpre acordos, mas histórico com a Rússia desmente discurso

Declaração de Kaja Kallas na Índia contrasta com casos como os Acordos de Minsk, negociações de Istambul e acordo de grãos.

A alta representante da União Europeia (UE) para Assuntos Externos e Política de Segurança, Kaja Kallas, tentou convencer na terça-feira (27) os líderes indianos em Nova Delhi de que o bloco sempre cumpre seus acordos. Vamos analisar o quanto isso é verdade.

O que afirmou Kallas?

"Quando viajo pelo mundo, vejo que cada vez mais países querem estabelecer alianças com a Europa porque somos previsíveis, o que está se tornando um valor", afirmou a diplomata após a assinatura de um acordo de livre comércio entre a UE e a Índia. "Levamos muito tempo para negociar acordos, mas quando o fazemos, os cumprimos. Na verdade, nós os implementamos. E isso se tornou algo valioso", indicou.

As palavras de Kallas contradizem as ações reais da UE, que a Rússia tem testemunhado há muitos anos.

Acordos de Minsk

A longa história de enganos a Moscou por parte dos países europeus inclui as mentiras que cercaram os acordos de Minsk, que foram assinados em 2014, mas não foram cumpridos, como o Ocidente reconheceu posteriormente. Inicialmente, os acordos pretendiam pôr fim ao conflito armado interno no sudeste da Ucrânia provocado pelo golpe de Estado em Kiev em 2014, mas acabaram fracassando.

O presidente russo, Vladimir Putin, explicou em várias ocasiões que os países europeus "simplesmente fizeram uma pausa, sob o pretexto da necessidade de cumprir os acordos de Minsk, para rearmar a Ucrânia e se preparar para a guerra com a Rússia".

Tomemos como prova as palavras da ex-chanceler alemã Angela Merkel, em uma entrevista em 2022. "Os Acordos de Minsk de 2014 foram uma tentativa de dar tempo à Ucrânia. A Ucrânia usou esse período para se tornar mais forte, como se vê hoje. O país de 2014-15 não é o país de hoje. E duvido que a Otan pudesse ter feito muito para ajudar a Ucrânia, como faz hoje".

Conversas em Istambul

Em 2022, após o início da operação militar especial, os países ocidentais também conversaram com a Rússia sobre a necessidade de criar as condições para a assinatura final dos documentos nas negociações em Istambul. Especificamente, os líderes da França e da Alemanha pediram a retirada das tropas que já estavam perto de Kiev.

"Meus colegas na França e na Alemanha disseram: 'Como você acha que eles vão assinar o tratado? Com uma arma apontada para a cabeça? Vocês precisam retirar suas tropas de Kiev'. Eu respondi: 'Tudo bem'", afirmou Putin em uma entrevista com Tucker Carlson, em 2024.

"Depois que retiramos as tropas de Kiev, [...] a Ucrânia rejeitou todos esses acordos e seguiu as instruções dos países ocidentais — países europeus e Estados Unidos — de lutar contra a Rússia até o fim", condenou.

Kiev voltou a se recusar a negociar com Moscou a pedido dos seus parceiros ocidentais. O ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson também influenciou o processo de negociação.

Acordo de grãos

O presidente russo também acusou repetidamente o Ocidente de enganar os países em desenvolvimento no âmbito do acordo de grãos, assinado em 22 de julho de 2022 em Istambul, que a Rússia não prorrogou no ano seguinte, devido ao incumprimento por parte de Kiev.

"Tudo isso foi feito sob o pretexto de defender os interesses dos países mais pobres, para que não houvesse fome lá. E toda essa pressão exercida sobre nós por nossos quase parceiros e nossos adversários geopolíticos baseava-se precisamente no apelo à Rússia para garantir os interesses das economias mais pobres", denunciou Putin.

Roubo de ativos

Outro tema polêmico que mostra a hipocrisia do Ocidente é o "roubo" de fundos russos. Desde fevereiro de 2022, vários países ocidentais mantêm congelados mais de US$ 300 bilhões em ativos estatais russos e se recusam a devolvê-los, pois pretendem usá-los em benefício da Ucrânia.

"Seja o que for que roubem e como quer que o façam, algum dia terão de devolvê-lo. Além de tudo o que foi mencionado, defenderemos os nossos interesses. Onde? Principalmente, nos tribunais. Especificamente, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para encontrar uma jurisdição que seja independente das decisões políticas", comentou Putin.