Notícias

Ações de Trump abrem espaço para Brasil rever adesão à não proliferação nuclear, dizem especialistas

Ao analisar os desdobramentos recentes na Venezuela, Paulo Nogueira Batista Jr. e José Maurício Bustani defenderam o fortalecimento das Forças Armadas brasileiras. Segundo eles, o Brasil é hoje a única grande nação do mundo que não dispõe de armas nucleares.
Ações de Trump abrem espaço para Brasil rever adesão à não proliferação nuclear, dizem especialistasImagem gerada por IA

O cenário internacional atravessa um nível de risco elevado sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial, segundo artigo de Paulo Nogueira Batista Jr., economista brasileiro e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, publicado nesta segunda-feira (26) na revista Russia in Global Affairs. O texto tem coautoria de José Maurício Bustani, primeiro diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas, e aponta que a crise atual é de natureza estrutural, exigindo tempo e esforço contínuos para ser superada.

Os autores sustentam que o ataque à Venezuela e a tentativa de "recolonizá-la" devem servir de forte alerta para o Brasil e outros países, pois tais ações levantam a questão crucial da dissuasão.  

Para eles, as armas convencionais do Brasil são insuficientes para defender as fronteiras do país e a costa atlântica, por isso, é necessário, "embora tragicamente tardio", começar a fortalecer as Forças Armadas do país, criando uma base industrial de defesa genuína. Os autores sustentam que criar tal ferramenta de dissuasão é uma tarefa urgente, que deveria ter sido inciada há muito tempo.

"Hoje o Brasil é o único grande país do planeta que não possui armas nucleares", observam.

"Entre outras iniciativas, é essencial estabelecer ou aprofundar a cooperação militar com países como China, Rússia, Índia e França", argumentam os autores, enfatizando a importância de se repensar as estratégias militares para "evitar a colonização mental e a subordinação às doutrinas norte-americanas". 

Intervencionismo sem máscaras:

Segundo os autores, "o império americano sempre foi intervencionista e brutal". Seu desrespeito ao direito internacional não é novidade e se manifesta de diversas formas, inclusive na liderança de organizações internacionais.

Eles observam, no entanto, antes do mandato presidencial de Donald Trump, as ações imperiais dos Estados Unidos eram encobertas por "uma retórica hipócrita e multifacetada – a mesma hipocrisia de sempre".

Tal padrão foi rompido quando Trump passou a tratar abertamente a Venezuela como alvo de dominação, declarando que o objetivo de Washington era "governar" o país e assumir o controle de seu petróleo. Enquanto governos anteriores dos EUA costumavam justificar operações externas com discursos sobre direitos humanos e democracia, "sob Trump, o poder imperial deixou cair todas as máscaras", afirma o artigo. 

"O fenômeno Trump deve ser visto como a reação de uma superpotência em declínio, incapaz de manter adequadamente sua hegemonia global por meio da competição econômica e do cumprimento de regras. O governo Trump está desmantelando a arquitetura das relações internacionais que os próprios EUA construíram após a Segunda Guerra Mundial. Nada restará", prosseguem os autores. 

Argumenta-se ainda que essas circunstâncias dão ao Brasil motivos suficientes para "reconsiderar sua participação no Tratado de Não Proliferação Nuclear, ao qual aderimos em 1998 sem um debate público genuíno e aprofundado".

Eles ainda destacam a importância do controle geográfico sobre minerais e metais de terras raras, bem como sobre as rotas e fluxos comerciais ao redor do Brasil.

"A chamada 'zona de paz no Atlântico Sul' deve deixar de ser retórica e se tornar um fórum de diálogo estratégico entre seus membros, com a devida coordenação com os países do BRICS", afirmam os especialistas brasileiros.