Sete anos depois do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais anunciou o encerramento das buscas por vítimas na área atingida pelos rejeitos de mineração.
A tragédia, que matou 270 pessoas em 25 de janeiro de 2019, deixa duas vítimas ainda não localizadas: Nathália de Oliveira Porto Araújo e Tiago Tadeu Mendes da Silva.
Durante a operação, que se estendeu por 2.558 dias, mais de 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram examinados. O trabalho envolveu mais de 5 mil bombeiros de Minas Gerais, com apoio de corporações de outros estados, 31 aeronaves, 68 cães e cerca de 120 máquinas. A última vítima identificada foi Maria de Lurdes da Costa Bueno, em fevereiro de 2025.
De acordo com o tenente Henrique Barcellos, porta-voz da corporação em entrevista à TV Globo, a operação chegou ao fim com a sensação de dever cumprido.
"Chegar ao fim desse rejeito tendo vistoriado todo ele nos traz um sentimento de dever cumprido, de honrar um compromisso e, ao mesmo tempo, o sentimento de gratidão com o povo mineiro, que sempre nos reconheceu durante todo esse tempo, principalmente em Brumadinho, nos acolheu em cada abraço, em cada conversa, em cada nova esperança, e sabemos que a corporação não é a mesma depois desse fato. […] Brumadinho, sem dúvidas, foi uma das grandes materializações do nosso propósito de salvar e valorizar vidas", afirmou.
A lama percorreu aproximadamente 290 hectares e atingiu estruturas da Vale, residências, plantações e o Rio Paraopeba. Os rejeitos chegaram à margem do rio pouco mais de duas horas após o rompimento.
Desaparecidos e impunidade
Nathália Araújo tinha 25 anos e era estagiária da Vale havia quatro meses. Estava em horário de almoço, falando ao telefone com o marido, quando viu a onda de lama se aproximar. "Deus, me dá o livramento", foram suas últimas palavras. Ela deixou dois filhos pequenos.
A prima de Nathália, Tânia Efigênia de Oliveira Queiroz, disse que ainda tinha esperança de que a jovem fosse localizada. "O que a gente está mais sentindo é a impunidade. Até então ninguém foi preso, não teve justiça, e a gente fica triste com isso. Nós perdemos nossas joias e caímos no esquecimento", declarou.
Tiago Mendes da Silva havia sido transferido para Brumadinho apenas 20 dias antes da tragédia. Ele deixou dois filhos, um deles com apenas oito meses. Sua mãe, Lúcia Aparecida Mendes Silva, chegou a pedir, em 2024, o fim das buscas.
"Imagina dormir e acordar esperando o telefone tocar. Já perdi as esperanças, a Vale não entregou nem nunca vai entregar o corpo do meu filho para mim. Eu suplico que parem com as buscas", disse ao portal g1.
A Polícia Civil ainda trabalha na análise de segmentos humanos não identificados, mas não informou quantos restos mortais ainda estão sob exame. Os equipamentos usados pelos bombeiros devem ser recolhidos até a primeira quinzena de fevereiro de 2026.
O processo criminal envolvendo o rompimento da barragem avança lentamente. As testemunhas começaram a ser ouvidas em janeiro, e familiares de vítimas realizaram um ato conjunto às vésperas do sétimo ano da tragédia, cobrando justiça e responsabilizações.