
O que as Ilhas Virgens Americanas ensinam sobre a expansão dos EUA?

A história das Ilhas Virgens Americanas, outrora sob domínio dinamarquês por mais de 250 anos, ressoa hoje no debate sobre o interesse estratégico dos Estados Unidos pela Groenlândia.

"A história nunca se repete da mesma forma, mas se apresenta de uma maneira diferente", avaliou Stephanie Chalana Brown, historiadora visual afro-caribenha com profundas raízes nas Ilhas Virgens Americanas, citada pelo jornal USA Today.
A Companhia Dinamarquesa das Índias Ocidentais chegou às ilhas caribenhas no Século XVII, tomando São Tomás em 1672, São João em 1694, e comprando a ilha de Santa Cruz da França em 1733. Vestígios da presença dinamarquesa são visíveis na arquitetura, nos nomes das cidades, como Frederiksted, e nas tradições culturais que persistem nas ilhas.

Essa herança colonial coexiste com a vibrante cultura caribenha e a influência crescente da presença americana, refletida em estabelecimentos como McDonald's e Home Depot.
Incorporação aos EUA
Desde o século XIX, os Estados Unidos demonstraram interesse em adquirir territórios próximos à América, após a compra do Alasca da Rússia em 1867. Já no ano seguinte, 1868, um relatório governamental pelo secretário do Tesouro dos EUA, Robert J. Walker, já defendia a aquisição da Islândia e, principalmente, da Groenlândia, destacando seu potencial em recursos naturais, como carvão e pesca, e sua importância estratégica.
A ideia de expansão territorial americana era impulsionada pelo desejo de estabelecer uma presença dominante na região, similar à que buscava na América Latina.
A oportunidade para a aquisição das Ilhas Dinamarquesas surgiu durante a Primeira Guerra Mundial. Durante a Primeira Guerra Mundial, o Presidente Woodrow Wilson, temendo que a Alemanha absorvesse a Dinamarca e seus territórios, ameaçou tomar as ilhas à força, forçando a Dinamarca a vendê-las por 25 milhões de dólares.
O acordo, formalizado em agosto de 1917, concedeu aos EUA soberania sobre as ilhas, incluindo terras, edifícios e direitos de propriedade. A população local, composta por cerca de 26 mil habitantes naquele ano, não teve voz na decisão.

A cidadania americana só foi concedida após de mais de uma década e somente mais de meio século depois, em 1970, o território passou a eleger seu próprio governador. Até hoje, contudo, os habitantes das Ilhas Virgens não podem votar para presidente nem têm representação com direito a voto no Congresso.
A história da aquisição das Ilhas Dinamarquesas é um exemplo de como a política externa americana frequentemente priorizou seus próprios interesses estratégicos em detrimento da autodeterminação dos povos locais. Essa experiência é especialmente relevante no contexto atual, com o interesse renovado dos EUA pela Groenlândia e, de forma mais intensa, com a crescente militarização do Caribe.
Em expansão
Enquanto o ex-Presidente Donald Trump busca acesso à Groenlândia, alguns moradores das Ilhas Virgens Americanas veem paralelos com a sua própria história de despossessão e falta de representação, afirmam à reportagem do USA Today.
A dinâmica histórica da expansão americana segue uma tendência em estabelecer relações de poder assimétricas, onde os interesses locais são frequentemente subordinados aos objetivos nacionais. Virginenses, partindo de sua própria experiência de colonização, expressam preocupações de que as comunidades locais sejam marginalizadas em decisões sobre o uso de suas terras, como aconteceu no passado.
A negociação com a Dinamarca e a potencial criação de novas bases militares na Groenlândia evocam o modelo estabelecido durante a anexação das Ilhas Virgens, um padrão de buscar acordos que maximizem o controle estratégico americano, utilizando muitos de seus mesmos argumentos.

Desde agosto de 2025, a presença militar americana no Caribe se expandiu rapidamente, renovando o destacamento militar americano nos territórios caribenhos, incluindo as Ilhas Virgens Americanas, no contexto da escalada contra a Venezuela.
A teia de operações americana reinstaurou o uso do complexo Port Hamilton em Santa Cruz para alojar militares americanos, reafirmando sua ocupação como um posto militar avançado para suporte logístico nos bombardeios que perturbam as águas do Mar do Caribe. A tendência de militarização do Ártico se apresenta com similar clareza, concretizando os objetivos da estratégia dos Estados Unidos para sua presença monopolística no hemisfério ocidental.
Sob as solas e hélices
A presença militar estrangeira dos Estados Unidos, historicamente, também imprimiu sua marca na cultura e na identidade das comunidades locais. A influência americana nas Ilhas Virgens resultou em uma gradual erosão da identidade caribenha, com a proliferação de produtos e valores americanos.
"Você vê a identidade de nossas crianças sendo diluída, pois elas estão aprendendo sobre a cultura americana por influência de coisas como televisão e rádio", denunciou Brown à reportagem. "Estamos perdendo nossa própria identidade caribenha."
Existe o receio de que um cenário semelhante possa se repetir na Groenlândia, afetando a cultura inuit e a língua groenlandesa, já evidentemente distinta da cultura dinamarquesa.
O passado das Ilhas Virgens Americanas serve como um lembrete da continuidade histórica da imposição de interesses dos Estados Unidos, especialmente no hemisfério ocidental. Diante de uma história que atropela a autodeterminação dos povos, a voz do povo virginense ecoa em alerta de novos passos trilhando um velho caminho.




