
Vaticano esperava que Brasil mediasse conflito entre Estados Unidos e Venezuela, revelam telegramas

Telegramas diplomáticos obtidos neste sábado (24) pelo portal Poder360 por meio da Lei de Acesso à Informação indicam que a Santa Sé considerava o Brasil o mediador natural nas tensões entre Estados Unidos e Venezuela, diante da escalada militar no Caribe. A expectativa era de que o Itamaraty atuasse para evitar um confronto armado direto entre os dois países.
A avaliação consta de telegrama da Embaixada do Brasil junto ao Vaticano, datado de 7 de novembro de 2025, que registra a percepção da diplomacia da Santa Sé sobre a capacidade brasileira de abrir canais de diálogo entre Washington e Caracas.

O documento aponta a "credibilidade regional" do Brasil e sua tradição diplomática orientada ao diálogo como fatores centrais para esse papel.
Documentos classificados como secretos mostram que a preocupação externa coincidia com análises internas do próprio Itamaraty. Um Termo de Classificação de Informação da Embaixada em Caracas trata das "tensões no Caribe" e do "risco de conflito armado", com cenários de enfrentamento entre os dois países.
Telegramas indicam monitoramento do deslocamento de forças militares norte-americanas no Caribe, incursões aéreas no espaço venezuelano e respostas de Caracas, como o acionamento de caças.
Em mensagem de 17 de outubro de 2025, a embaixadora Glivânia Maria de Oliveira afirmou que a confrontação militar direta era "considerada plausível".
A diplomacia brasileira também avaliava, então, impactos regionais, incluindo reações de países vizinhos e de organismos multilaterais, além do risco de desestabilização da América Latina e do Caribe, região definida como "Zona de Paz".
O ataque dos Estados Unidos
A tensão culminou em 3 de janeiro de 2026, quando os Estados Unidos realizaram uma incursão em território venezuelano que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores. O governo venezuelano classificou a ação como uma "agressão criminosa, ilegítima e ilegal".
No dia seguinte à agressão, o Papa Leão XIV afirmou que acompanhava "com grande preocupação a evolução da situação na Venezuela".
"O bem do povo venezuelano deve prevalecer acima de qualquer outra coisa, superando a violência e abrindo caminhos de justiça e paz, garantindo a soberania da nação", disse o pontífice em mensagem após o Angelus, na Praça de São Pedro.
Em reunião extraordinária do Conselho Permanente da OEA, o Brasil qualificou a operação como "grave". O embaixador Benoni Belli declarou que o episódio evoca "tempos considerados ultrapassados, mas que voltam a assolar a América Latina e o Caribe".
Em nota enviada à imprensa em 12 de janeiro, o Ministério das Relações Exteriores afirmou, segundo o Correio Braziliense, que "não há escalada de tensão entre o Brasil e os Estados Unidos" e que a posição brasileira é "coerente com a tradição da política externa e com a Constituição".

