Cientista brasileiro desenvolve ressonância bucal que revela o que outros exames não mostram

Tecnologia inédita permite visualizar tecidos moles da boca sem uso de radiação nos exames.

As máquinas de ressonância magnética ganharam papel essencial na medicina ao ampliar a precisão dos diagnósticos. Agora, uma nova tecnologia desenvolvida pelo cientista brasileiro Rubens Spin-Neto, professor da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, promete transformar também a odontologia.

Em entrevista exclusiva ao portal Metrópoles, ele apresentou um equipamento inédito projetado para examinar a cavidade bucal, atualmente em fase de testes e com previsão de estreia no Brasil ainda em 2026.

De acordo com o pesquisador, a proposta da ressonância magnética dedicada à odontologia é gerar imagens mais precisas e seguras, revelando alterações invisíveis aos métodos tradicionais. O grande diferencial está na ausência total de radiação ionizante, comum em exames como radiografias e tomografias.

"A maioria das máquinas que utilizamos hoje depende de radiação ionizante, que, quando acumulada ao longo da vida, está associada a um aumento do risco de câncer. A ressonância magnética não usa esse tipo de radiação e, por isso, é considerada um método totalmente seguro", afirma.

Além disso, o novo equipamento permite a visualização detalhada dos tecidos moles, algo que os exames convencionais não conseguem captar.

"Muitas vezes o paciente procura o dentista por dor, cárie ou um problema ósseo, mas a origem pode estar nos tecidos moles. Essa é a primeira modalidade de imagem que consegue, dentro da odontologia, avaliar tanto os tecidos mineralizados quanto os tecidos moles de forma detalhada", explica Spin-Neto.

Segundo ele, a nova tecnologia também possibilita detectar doenças em estágios iniciais, o que favorece tratamentos mais simples, menos invasivos e focados na prevenção.

A máquina funciona de forma semelhante à ressonância hospitalar, mas com adaptações específicas para a região da face. O paciente permanece deitado enquanto uma antena dedicada capta imagens da boca, mandíbula, maxila e seios maxilares.

"Ela lembra uma ressonância tradicional, mas é menor, mais leve e focada apenas na região da face. Isso torna o exame menos claustrofóbico e mais confortável para o paciente", explica. O desenvolvimento começou em 2021 e os primeiros testes clínicos ocorreram no ano seguinte, avaliando mais de 500 pacientes.

Os testes iniciais foram conduzidos na Dinamarca e, a partir de 2024, se expandiram para outros países da Europa e da América do Norte. Atualmente, cerca de dez equipamentos estão em operação no mundo, ainda em ambiente de pesquisa. A aprovação para uso clínico foi concedida em janeiro de 2025 na Europa e, no fim do mesmo ano, nos Estados Unidos.

"Quando Europa e Estados Unidos aprovam uma tecnologia, a Anvisa também passa a permitir o uso e a comercialização no Brasil", diz Spin-Neto. A previsão é que os primeiros aparelhos sejam apresentados ao mercado brasileiro durante um congresso odontológico em São Paulo ainda em 2026.

O pesquisador destaca que ver a tecnologia chegar ao Brasil tem um significado especial. "O Brasil sempre teve um papel de liderança na odontologia. Como pesquisador e brasileiro, é muito gratificante ver uma tecnologia que ajudei a desenvolver chegando para beneficiar pacientes no meu país", conclui.