A submissão estrutural da Europa aos Estados Unidos - implícita e dissimulada durante décadas sob a aparência de uma aliança entre iguais - foi abruptamente exposta pela política de Donald Trump, forçando o Velho Continente a reconhecer publicamente sua real falta de alternativas, aponta Fyodor Lukianov, editor-chefe da Russia in Global Affairs, em análise publicada na revista Expert.
"Até agora, a norma de comportamento era manter silêncio sobre isso. Todos entendiam quem mandava […] mas nos círculos intelectuais não se costumava alardear o fato", avaliou Lukianov. Segundo ele, Trump descartou todas essas cortesias.
"O fato de os Estados Unidos estarem transformando seu sistema de clientelismo em uma imposição — e uma imposição mercantilista, por sinal — é uma característica do atual presidente."
Como resultado, a União Europeia "é forçada a reconhecer abertamente o que antes era admitido em silêncio", observa o analista.
Vassalagem confessa
Esse reconhecimento forçado chegou até o Fórum de Davos, onde o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, admitiu na quarta-feira (21) sua preferência de ser um "vassalo feliz" dos Estados Unidos, contra sua nova realidade de "escravo miserável". A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, por sua vez, admitiu na terça-feira (20) que a antiga ordem mundial não retornará e que a Europa não pode escapar de sua dependência estrutural esperando esse resultado.
O cerne do problema não está em admití-lo, segundo Lukianov, mas na ausência de opções. O especialista aponta que a Europa terá que reconhecer que "não tem ideias, nem esquemas, nem modelos de como poderia organizar-se […] sem o patrocínio dos Estados Unidos".
A esperança para os europeus, sugere, é um retorno à "hipocrisia cortês": "podem esperar que o próximo presidente […] comporte-se de maneira diferente". Assim, "poderão voltar a fingir que as relações se baseiam no amor, e não na coerção".
Megalomania
Lukianov aplica essa mesma análise à proposta do Conselho da Paz, que interpreta como um instrumento personalista de Trump e não como um substituto funcional da ONU — instituição que, segundo ele, o presidente americano simplesmente ignora.
"Todo este Conselho da Paz está relacionado, antes de tudo, com o fato de que ele próprio será o presidente deste conselho. Todo o resto é secundário para ele."
Trump buscaria criar uma estrutura paralela que lhe conceda legitimidade internacional, aponta o analista, de modo que possa afirmar: "não representamos apenas a nós mesmos, […] eis aqui a verdadeira comunidade internacional", enquanto corta o financiamento do sistema multilateral vigente.
Lukianov comenta que essa "abordagem comercial" implicaria até mesmo no estabelecimento de um preço à adesão permanente de sua plataforma, sugerindo a inspiração em um serviço de assinatura.
"Quanto à capacidade e funcionalidade desse Conselho da Paz, por enquanto não existe nada disso", afirma Lukianov. "É uma tentativa de criar um instrumento universal sob os caprichos de Trump que possa, se necessário, lidar com qualquer coisa — Ucrânia, República Democrática do Congo, Estreito de Taiwan — e ainda assim ter certa legitimidade", afirmou.