
Estudo revela países com maior concentração de riqueza na América Latina

Um relatório da ONG internacional Oxfam, apresentado na quinta-feira (22) no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, revelou o nível da concentração de riqueza na América Latina, onde as fortunas dos bilionários crescem 16 vezes mais rápido do que no resto do mundo.

O relatório, citado pela Bloomberg, detalha que os epicentros da extrema riqueza na América Latina estão localizados em cinco países, que servem como pilares da acumulação de riqueza nas mãos de poucos.
O Brasil lidera a lista, com 66 bilionários que possuem um patrimônio líquido combinado de US$ 253 bilhões (cerca de R$ 1,3 trilhão), um valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de vários países da América Central, juntos.
Segundo os dados da ONG, o México ocupa o segundo lugar na região com uma concentração de US$ 219 bilhões (cerca de R$ 1,15 trilhão), e seus bilionários dominam empresas em setores como telecomunicações e varejo.
Em seguida na lista estão o Chile (US$ 54,4 bilhões), a Colômbia (US$ 42 bilhões) e a Argentina (US$ 19,8 bilhões), que, apesar de suas crises cíclicas, mantém uma elite com ativos dolarizados altamente concentrados.

Mais abaixo na lista, a Oxfam destaca um segundo grupo composto por Belize (US$ 13,2 bilhões), São Cristóvão e Névis (US$ 9,7 bilhões), Venezuela (US$ 7,3 bilhões), Peru (US$ 3,1 bilhões) e Barbados (US$ 1 bilhão).
Além disso, o estudo afirma que toda essa riqueza é controlada por apenas 1% da população da América Latina e do Caribe — cerca de 7 milhões de pessoas que controlam 36% da riqueza total em uma região habitada por aproximadamente 670 milhões de pessoas, segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
A análise alerta que essa situação de desigualdade acentuada não é acidental, mas sim resultado de três fatores estruturais: a predominância da herança; o controle de setores estratégicos; e sistemas tributários regressivos, que favorecem os mais ricos. Notoriamente, 53,8% dos bilionários latino-americanos herdaram suas fortunas, em comparação com a média global de 37,3%.
Além disso, 65% desses patrimônios estão concentrados em monopólios ou oligopólios nos setores financeiro, energético e de telecomunicações — setores que extraem lucros diretamente do consumo básico da população.
Outro fato importante é que, na região, o consumo é tributado mais fortemente por meio do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e da renda do trabalho do que os altos rendimentos.

Uma vida inteira de trabalho versus um dia de riqueza
Diante dessa realidade, um dado do relatório se destaca de maneira mais incisiva. A Oxfam indica que, enquanto a riqueza de um bilionário aumentou diariamente em uma média US$ 491.198 (R$ 2,5 milhões) entre 2000 e 2025, o trabalhador médio ganha US$ 4.815 (cerca de R$ 25 mil) por ano. Isso significa que um empregado precisaria de 102 anos de vida profissional para igualar o que um magnata ganha em apenas 24 horas.
"A riqueza dos bilionários parece operar independentemente do resto da sociedade", destaca o relatório.
Ele também informa que, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 3% da riqueza, as elites aumentam seu patrimônio líquido a uma taxa de US$ 54 milhões (cerca de R$ 285 milhões) por dia.
Para a Oxfam, existe também um risco inerente a tamanha desigualdade. As elites ricas podem usar seu poder para influenciar decisões políticas, macroeconômicas, ambientais, fiscais e trabalhistas, e até mesmo dominar e controlar o Estado.

Diante disso, a ONG estima que um bilionário tem 4 mil vezes mais chances de influenciar uma decisão pública ou ocupar um cargo político do que um cidadão comum.
"Em uma região onde tanta riqueza está concentrada em poucas mãos, o poder econômico muitas vezes se traduz em poder político", destaca a Oxfam.
Políticas de combate
O relatório ainda acrescenta que a própria democracia latino-americana é posta em risco pela desproporcionalidade da influência dos mais ricos, urgindo às autoridades estatais que revertam a situação. As medidas recomendadas para o combate da concentração de riqueza incluem a implementação urgente de impostos sobre o 1% mais rico e do fortalecimento dos serviços públicos, especialmente educação e saúde, como forma de romper o ciclo da pobreza que afeta 332 milhões de latino-americanos.
Outros mecanismos destacados pela Oxfam incluem a implementação de políticas trabalhistas que alterem a atual precariedade e os baixos salários que prevalecem na região, bem como marcos monetários e financeiros que priorizem o retorno sobre o patrimônio líquido em detrimento da produtividade real.
Além disso, a ONG sugere que os governos regulem a influência política e midiática das elites, em prol da independência e da transparência, além de proteger as liberdades democráticas e fortalecer a participação cidadã.


