
Brasil não deve aderir a Conselho da Paz proposto por Trump, afirma Amorim — O Globo

O principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, afirmou que o Brasil não deve aderir à proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para criação de um Conselho da Paz voltado à Faixa de Gaza.
A declaração foi feita durante entrevista exclusiva ao jornal O Globo nesta quinta-feira (22), na qual Amorim disse que o estatuto enviado ao Itamaraty amplia o escopo do conselho para além da questão palestina e representa uma tentativa de reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) conduzida de forma unilateral.
"As coisas não estão claras", afirmou o ex-chanceler. Segundo ele, o texto anexo ao convite "começa a falar de uma coisa e depois vai alargando", o que, na prática, configuraria uma revogação das funções da ONU nas áreas de paz e segurança.
"Essa parte, com certeza, eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país", completou.
Amorim chamou atenção para o fato de que a palavra "Gaza" sequer aparece no estatuto. "Ele se refere a qualquer conflito. Isso está dito claramente", afirmou. Segundo ele, o novo conselho proposto por Trump se assemelha a um Conselho de Segurança com um presidente praticamente permanente. "Até agora, os países europeus não aceitaram", acrescentou.
O assessor da Presidência afirmou que não há espaço para negociação do modelo proposto. "Ele [Trump] disse inclusive que não aceita emendas. Não é possível discutir, ajustar aqui ou ali. É um contrato de adesão", disse.

Amorim ponderou que, se fosse possível separar os pontos mais sensíveis do documento, haveria espaço para discussão, mas reforçou que isso dependeria também da opinião dos palestinos e de países árabes. "Mesmo assim, não é automático", declarou.
Questionado se o convite seria uma armadilha para o Brasil, Amorim respondeu: "Não acho. Ele mandou para muitos países. Seria uma armadilha para a França? Para a Itália? Não vejo assim. Obviamente, Trump tem uma visão de relações internacionais em que ele é sempre a figura central. Mas não me cabe fazer um julgamento sobre isso".
→ Confira a lista completa dos países que assinaram a carta do Conselho da Paz de Trump.
Sobre a possibilidade de interferência da extrema direita dos Estados Unidos nas eleições brasileiras deste ano, Amorim declarou que o Brasil deve estar preparado.
"Não vejo, pessoalmente, uma interferência direta dele [Trump]. Agora, a extrema direita nos Estados Unidos é muito complexa. Há setores que criticam Trump, outros que são mais neutros, mas que certamente podem tentar interferir, como tentaram outras vezes. Melhor dizendo, possivelmente. Temos que estar preparados para isso e saber nos defender", afirmou.
Ao comentar a situação na Venezuela, Amorim disse que o Brasil não reconhece governos, mas sim Estados. "O fato real é que Delcy Rodríguez está à frente do governo. Se for necessário, lidamos com ela. O presidente falou com ela logo no primeiro dia e houve também uma remessa de remédios. Isso é tudo, por enquanto", afirmou.
Sobre a defesa da soberania feita por Lula diante do avanço da influência dos Estados Unidos na região, Amorim reforçou que "cada um cuida da sua".
"Na Europa, vários líderes disseram, inclusive Emmanuel Macron, que a Groenlândia é território da União Europeia. Nós aqui temos que nos preocupar também com a soberania brasileira. E qualquer ataque a um país sul-americano é uma ameaça ao Brasil, direta ou indireta. Um conflito em um país que faça fronteira com o Brasil pode ter repercussões para nós", explicou.
Perguntado se isso representa uma preocupação concreta com os Estados Unidos, Amorim respondeu: "Não estou dizendo que isso vai acontecer. O próprio Trump disse recentemente que gosta do Lula. Não é que estejamos temerosos, mas o precedente é muito ruim. Não podemos aceitar esse tipo de exemplo".
Amorim também comentou o avanço de governos de direita na América do Sul. Segundo ele, o Brasil manterá relações normais desde que haja respeito e civilidade. "Lula manteve relações normais com governos de direita no passado, como o de Álvaro Uribe, na Colômbia, e recebeu recentemente o presidente do Equador, Daniel Noboa. São nossos vizinhos. Precisamos ter uma relação normal, desde que haja civilidade", disse.
Sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia, judicializado pelo Parlamento Europeu, o assessor minimizou os efeitos do processo. "Continuamos no nosso trabalho. O Mercosul fez um acordo com a União Europeia, o que é muito importante, mesmo que nem todos os aspectos comerciais sejam vantajosos. Ele gera mais equilíbrio nas relações internacionais, inclusive no comércio. Sobre a decisão do Parlamento Europeu, é um procedimento normal. Não há preocupação nenhuma", concluiu.
