Um ford velho e R$ 110 na conta: entenda acusações de fraude na falência de gigante coreana no Brasil
A Posco Engenharia e Construção do Brasil, subsidiária da sul-coreana Posco, protocolou na terça-feira (20) pedido de falência, reconhecendo a incapacidade de manter suas operações no país. Segundo informações divulgadas pelo portal UOL, a empresa acumula dívidas que podem chegar a R$ 1 bilhão.
A título de patrimônio para pagamento das dívidas, a Posco informou possuir menos de R$ 110 em conta-corrente, aplicações financeiras de aproximadamente R$ 5 mil, um terreno avaliado em pouco mais de R$ 1 milhão e um Ford Fusion defeituoso com multas registradas.
A empresa foi criada para atuar principalmente nas obras da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), no Ceará, projeto que marcou a entrada do grupo asiático no setor siderúrgico brasileiro.
Dívidas milionárias
Segundo a empresa, do total das obrigações declaradas, a dívida está distribuída em R$ 573,5 milhões em créditos trabalhistas, R$ 33,7 milhões em tributos não pagos, R$ 26,6 milhões para a controladora Intercompany e R$ 10,4 milhões ao credor quirografário (sem garantia ou preferência sobre o patrimônio do devedor).
Muitos credores, entretanto, contestam os números apresentados e apontam que outros valores não foram incluídos na relação oficial. A Campelo Costa Sociedade de Advogados, que representou a empresa durante sete anos de obras na CSP, reivindica uma dívida no valor de R$ 567 milhões.
O pedido de falência, apresentado em setembro de 2025, centralizou todas as disputas judiciais em um único processo. A Campelo Costa conseguiu o reconhecimento da desconsideração da personalidade jurídica no curso do processo — ou seja, a possibilidade de acessar o patrimônio da empresas por trás da CSP, sócios e administradores, para quitar seu crédito.
O advogado Frederico Campelo, sócio da Campelo Costa, ocupa o cargo de presidente da Associação Internacional dos Credores da Posco, e alerta para a prática recorrente da empresa.
"Pegou o dinheiro da obra, remeteu recursos para fora e deixou toda uma cadeia produtiva prejudicada. Empresas aqui no Ceará fecharam por causa disso", acusa o advogado, citado pela reportagem. "Esse pedido é claramente fraudulento, apresenta dados falsos e incorretos. Vamos mostrar que a empresa age assim de forma sistemática pelo mundo."
Se reivindicada a anulação do pedido de falência, o processo unificado retornaria a varas de origem na forma de ações individuais de cobrança contra a empresa, informa Campelo. Ademais, as acusações dos credores também podem descrever uma fraude falimentar — isto é, o pedido de falência sob falso pretexto, ocultando bens, apresentando relatos contábeis errôneos, entre outros métodos — uma prática que é considerada crime na justiça brasileira.

