Críticas tardias de Macron a Trump confirmam avisos feitos por Putin há mais de dez anos

Durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, o presidente francês reiterou a necessidade de aplicar a bazuca comercial europeia contra os EUA.

O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou na terça-feira (21) que este não é o momento para um novo imperialismo ou colonialismo, referindo-se às políticas dos EUA, particularmente às ameaças de Donald Trump de anexar a Groenlândia e impor novas tarifas a vários países europeus.

"Não vamos perder tempo com ideias absurdas, não vamos abrir a caixa de Pandora nem levantar novas questões. Este não é o momento para um novo imperialismo ou um novo colonialismo", declarou ele durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Um reconhecimento tardio do alerta de Putin

A competição de Washington "por meio de acordos comerciais que prejudicam nossos interesses de exportação, exigem concessões máximas e visam abertamente enfraquecer e subordinar a Europa, combinada com um acúmulo interminável de novas tarifas, é fundamentalmente inaceitável", argumentou o presidente francês.

Macron enfatizou que a Europa não deve "aceitar passivamente a lei do mais forte, o que levaria à vassalização e ao tribalismo". O presidente negou o prospecto de aceitar uma "nova abordagem colonial", alertando que "guerras comerciais, escalada protecionista e a corrida pela superprodução só produzirão perdedores".

Ele indicou que a Europa possui "ferramentas muito poderosas" e deve usá-las quando não for respeitada ou quando as regras do jogo não forem respeitadas.

"O que quero dizer é que o mais absurdo é que possamos nos encontrar na situação de ter que usar o mecanismo anticompetitivo contra os Estados Unidos pela primeira vez, caso eles imponham tarifas adicionais. É uma loucura. Lamento, mas é a consequência da imprevisibilidade e da agressão sem sentido", continuou.

As palavras de Macron representam um reconhecimento tardio do alerta que Vladimir Putin fez à Europa há mais de 10 anos, quando disse que os EUA precisam de vassalos, não de aliados.

"Um mundo de decisões brutais"

Macron também alertou para o ressurgimento de "ambições imperiais" e "uma mudança para um mundo sem regras, onde o direito internacional é desrespeitado e onde a única lei que parece importar é a do mais forte".

O presidente observou que isso também representa "uma virada para um mundo sem governança coletiva eficaz, onde o multilateralismo é enfraquecido por potências que o obstruem ou se distanciam dele, e onde as normas são corroídas".

Macron argumentou que, em um cenário global complexo e desafiador, a Europa deve buscar mais soberania e autonomia para os europeus e um multilateralismo eficiente que "produza resultados por meio da cooperação". Ele ressaltou ainda que a Europa não deve se submeter a uma ordem mundial definida por "aqueles que afirmam ter a voz mais alta, o maior bastão ou o que seja". 

O papel da Europa

O presidente apontou corretamente que a ordem mundial é caótica, mas parece ter esquecido que a UE também participa da criação desse mundo. Enquanto Macron busca liderar as alianças militares e políticas das quais a França faz parte e, ao mesmo tempo, obter a máxima autonomia em relação às obrigações dessas mesmas alianças, ele está dificultando ambos os processos, alimentando divisões dentro do bloco ocidental e conduzindo seu país a um beco sem saída.

Macron demonstrou ainda que sente que as políticas dos últimos anos estão levando a ele e ao seu país ao colapso. Um exemplo disso é sua repentina lembrança da importância do mercado chinês, após anos de insultos públicos e retórica moralizante da Europa em relação a Pequim. Há apenas dois meses, ele ameaçava empresas chinesas com tarifas e sanções comerciais, e agora fala da importância da colaboração diante da incerteza internacional e do contexto de crescentes desentendimentos com os EUA.

Trump irritado com a França

Mais cedo, Donald Trump impôs tarifas de 10% sobre produtos de diversos países europeus, incluindo a França, em resposta ao envio de tropas para a Groenlândia, em meio às ameaças do presidente americano de anexar a ilha dinamarquesa. Após entrarem em vigor em 1º de fevereiro, as tarifas deveriam aumentar para 25% a partir de 1º de junho.

Confira tudo o que você precisa saber sobre a Groenlândia e sua importância para os Estados Unidos neste artigo.

O presidente dos EUA expressou ainda seu descontentamento com a recusa de Macron em participar de seu Conselho de Paz para resolver o conflito na Faixa de Gaza. "Ninguém o quer porque ele deixará o cargo muito em breve", disse ele a repórteres na segunda-feira (19). "Vou impor uma tarifa de 200% sobre seus vinhos e champanhes e ele participará, mas não precisa", acrescentou Trump.

Para conhecer o plano de Trump para Gaza em detalhes, leia nosso artigo.

Mensagem pessoal vazada

Trump divulgou publicamente uma mensagem pessoal de Macron, o que constitui uma violação das normas diplomáticas e um insulto pessoal ao presidente francês. Na mensagem vazada, Macron expressou sua incompreensão em relação às ações de Washington sobre a Groenlândia. "Estamos em total acordo em relação à Síria. Podemos fazer grandes coisas com o Irã. Não entendo o que eles estão fazendo com a Groenlândia", dizia a mensagem.

O presidente francês também propôs a realização de uma cúpula do G7 em Paris na próxima quinta-feira, com "ucranianos, dinamarqueses, sírios e russos como participantes à margem", e convidou Trump para um almoço em Paris antes de seu retorno aos Estados Unidos.

"É uma falta de educação tratar a Rússia com tanto desprezo"

A Rússia há muito critica o tom desdenhoso das declarações de Macron. Durante uma coletiva de imprensa na terça-feira (20), o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, respondeu à afirmação do líder francês de que "a Rússia escolheu o caminho da guerra" e se comporta como um país "que não consegue se reconciliar com sua história".

"Bem, é uma grosseria desprezar assim a Rússia. Nós, é claro, estamos acima disso e tratamos esse tipo de declaração não tanto com desprezo, mas com desdém", afirmou Lavrov.

"Não se pode deixar de compreender que a história não consiste no que Kallas disse sobre as 19 guerras supostamente desencadeadas pela Rússia contra a Europa nos últimos 100 anos. A história consiste no fato de que, começando — ou continuando — com Napoleão e seguindo com Hitler, quase toda a Europa foi colocada sob as armas com o objetivo de derrotar e desmembrar a Rússia. É aí que a história começa e nosso povo nunca cederá nesse ponto", disse ele.

O chanceler russo ofereceu ainda um conselho aos políticos europeus. Lavrov destacou que as intenções de diálogo devem ser mantidas em sigilo, evitando demonstrações públicas. O chanceler afirmou ainda que "caso haja um interesse genuíno, basta simplesmente ligar, como fazem os diplomatas", sem acusações.