
Filho de diarista e pedreiro, ex-garçom toma posse como diplomata no Itamaraty

Nesta terça-feira (20), o brasiliense Douglas Rocha Almeida, de 31 anos, toma posse como diplomata de carreira no Ministério das Relações Exteriores (MRE). Filho de uma diarista e de um pedreiro, e ex-garçom na adolescência, Douglas afirma que chega ao Itamaraty amparado por uma trajetória marcada por esforço pessoal, apoio familiar e políticas públicas. A declaração foi dada em entrevista à TV Globo.
Criado em Luziânia (GO), no Entorno do Distrito Federal, Douglas foi aprovado no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) em 2025, após enfrentar uma disputa com 8.860 inscritos para 50 vagas. Ele ficou em 47º lugar no ranking geral e em terceiro entre os candidatos negros nas vagas reservadas.
"Minha mãe trabalha como diarista desde os 13 anos. São 40 anos nessa profissão, que é digna, mas muito cansativa. Prometi para ela que, quando eu passasse nesse concurso, ela não precisaria mais trabalhar como diarista", contou Douglas.
A mãe, Francisca Aparecida Rocha, conhecida como Cida, confirma a promessa feita pelo filho. "Teve dias que eu chegava chorando de dor. Quando ele me via, parava de estudar e vinha me abraçar. Eu sentia no meu coração que ele pensava: 'Vou tirar minha mãe dessa'", relatou.
Na quarta-feira (14), Douglas e a mãe foram recebidos no Palácio do Planalto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O encontro antecedeu a posse e simbolizou o reconhecimento do percurso trilhado por Douglas até a diplomacia.
Conheci o Douglas, filho de diarista e de pedreiro, que estudou por meio do ProUni e agora é o mais novo diplomata do Brasil. Histórias como a do Douglas são reais. Ele seguiu o exemplo de perseverança da mãe e, com oportunidades e apoio, conquistou o sonho de se formar no… pic.twitter.com/8M38BoFJzT
— Lula (@LulaOficial) January 15, 2026
Rotina intensa e promessa de mudança
A decisão de seguir a carreira diplomática se consolidou após uma perda familiar. "Depois que perdi minha irmã Tainá, comecei a pensar se valia a pena viver uma rotina tão exaustiva sem um propósito maior", disse.

Aos 15 anos, Douglas já percorria 160 km por dia entre Luziânia e Brasília para estudar no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, no Plano Piloto. A mesma rotina seguiu até a faculdade, com bolsa integral pelo ProUni na Universidade Católica de Brasília (UCB). Em paralelo, cursava licenciatura em Letras-Espanhol na Universidade de Brasília (UnB) e frequentava aulas de inglês e francês no Centro Interescolar de Línguas (CIL).
Durante esse período, trabalhou como garçom e monitor de festas infantis. "Eu anotava o pedido do cliente, mas do lado eu já tinha anotado a revisão de coisas para faculdade", contou.
Entre trabalho e estudos, Douglas chegou a dormir apenas 12 horas por semana. Em 2021, após concluir o mestrado, passou a se preparar de forma sistemática para o concurso do Instituto Rio Branco.
"Quero um Itamaraty mais plural"
Douglas também foi contemplado com uma bolsa do Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco em 2022. O benefício de R$ 30 mil é concedido a candidatos negros com bom desempenho, mesmo que não aprovados naquele ano.
Ele faz questão de destacar a importância de políticas públicas como o ProUni, o Bolsa Família — recebido pela família durante sua infância — e o Auxílio Emergencial na pandemia de Covid-19.
"O Itamaraty precisa refletir melhor a diversidade da população brasileira. É importante que haja mais mulheres, mais negros, mais pessoas com deficiência na diplomacia", afirmou.
Segundo ele, sua vivência no atendimento ao público pode contribuir para sua atuação com pessoas em situação de vulnerabilidade fora do país. "Acredito que isso pode acentuar a sensibilidade para lidar com quem passa por xenofobia ou discriminação. E também acho que posso ajudar a negociar com um olhar mais humano", disse.
Como primeiro passo, planeja ajudar a mãe a se aposentar da função de diarista e montar um espaço de lazer que ela possa administrar. "Essa é a minha forma de retribuir", concluiu.
