
Eleições em Portugal levam socialista e nacionalista ao segundo turno

As eleições presidenciais em Portugal foram levadas ao segundo turno após as votações realizadas no domingo (18), marcando um cenário inedito nos últimos quarenta anos, rompendo com uma tradição de eleições decididas já no primeiro turno e refletindo um cenário político fragmentado.
O segundo turno será disputado entre o candidato do Partido Socialista, António José Seguro, que conquistou o primeiro lugar o primeiro turno com mais de 31% dos votos; e André Ventura, líder do Partido Chega, representante da direita radical, que obteve cerca de 23,5%. O Partido Social Democrata, representado na atual presidência de Marcelo Rebelo de Sousa e no governo do premiê Luís Montenegro, ficou em quinto lugar na disputa, com a derrota do candidato Luís Marques Mendes.

Ambos os candidatos já se manifestaram sobre o resultado. Seguro enfatizou sua independência, afirmando que sua candidatura "não é partidária nem nunca será", refletindo uma estratégia de coalizão moderada que se manifesta na declaração de apoio de candidatos derrotados no primeiro turno — António Filipe, do Partido Comunista Português, Jorge Pinto, do Partido LIVRE, e Catarina Martins, do Bloco de Esquerda. Seguro convocou democratas, progressistas e humanistas a se unirem para derrotar o que considera "extremismo" e "divisão".
Já Ventura celebrou a conquista de liderar o espaço não socialista, afirmando que o país "despertou", comemorando sua posição de liderança em um cenário de "fragmentação política" no campo política da direita. Ele acusa o Partido Socialista de José Seguro de ser "o maior responsável moral pelo estado de corrupção e de degradação em que o país está".
Acirramento entre pólos opostos
O segundo turno, agendado para 8 de fevereiro, definirá a direção que o país tomará após os dois mandatos de cinco anos de Marcelo Rebelo de Sousa, que atualmente governa o sistema semipresidencialista de Portugal sem maioria parlamentar.
A campanha eleitoral foi refletiu o distanciamento das bases de Rebelo. O tema da imigração ganhou especial destaque com o discurso nacionalista de Ventura, que questiona a política de acolhimento de estrangeiros e defende a prioridade dos cidadãos portugueses. O Chega, partido de Ventura, foi um dos principais atores políticos no processo de aprovação da reforma regressiva da Lei de Estrangeiros no ano passado.
O cenário migratório em Portugal tem gerado apreensão, especialmente entre a comunidade brasileira, que é a maior comunidade de imigrantes no país. As recentes alterações nas leis de imigração e nacionalidade têm causado insegurança e medo, minando direitos de estrangeiros e refletindo um aumento nas agressões fundadas em xenofobia.
Entrevistada pelo jornal francês RFI, a presidente da Casa do Brasil em Lisboa, Ana Paula Costa, destacou a tensa mudança no ambiente político do país. Ela afirma que as mudanças na lei de imigração vão "ao limite do que a diretiva europeia permite", rompendo uma tradição "humanista e integradora" de Portugal. "Muda-se a lógica para uma ideia de que essas pessoas são quase inimigas", afirmou.

