
'Age de forma sistemática': a estratégia de Donald Trump para Groenlândia

Dmitry Evstafiev, professor do Instituto de Mídia da Universidade Superior de Economia e doutor em Ciência Política, disse à RT que a estratégia de Trump faz parte de um plano maior, focado no poder econômico, energético e geopolítico dos EUA, chamado por ele de "novo globalismo".

Segundo o especialista, esse conceito está "muito mais ligado à economia do que à globalização clássica, mesmo na versão centrada nos Estados Unidos".
Evstafiev aponta três pilares desse modelo: uma nova interpretação da Doutrina Monroe, a transformação dos EUA em superpotência energética que dita as regras do mercado de petróleo e gás, e a consolidação de Washington como potência no Ártico. Ele avalia que o controle legal sobre a Groenlândia é peça-chave para o papel dos EUA na região.
O analista descreve Trump como um líder que "age de forma sistemática", escolhendo seus movimentos de acordo com as fraquezas de seus concorrentes. Ele lembra que o presidente vê a Europa vulnerável o suficiente para repensar o status da Groenlândia de maneira totalmente nova.
Como exemplo, Evstafiev cita declarações de Trump sobre a defesa da ilha: "Sabem qual é a defesa deles? Dois trenós puxados por cães", disse o presidente na segunda-feira (12), referindo-se à suposta presença de destróieres e submarinos russos e chineses na região.
Ao falar da Groenlândia, Trump "coloca em evidência a incapacidade da OTAN de proteger a ilha de ameaças externas, mesmo que sejam inventadas", ressalta Evstafiev.
O recado, segundo o especialista, é claro: o presidente quer "recuperar qualquer ativo mal defendido". Essa postura, para Evstafiev, também revela o fracasso dos líderes europeus em formar sequer uma pequena "coalizão disposta" a sustentar a segurança do continente.
Tarifas e reação internacional
- Trump anunciou no sábado (17) a imposição de uma tarifa de 10% sobre todos os produtos enviados aos EUA a partir de Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia, com início em 1º de fevereiro. Segundo ele, a tarifa subirá para 25% em 1º de junho de 2026. "Essa tarifa será aplicada e cobrada até que se alcance um acordo para a compra completa e total da Groenlândia", afirmou Trump.
- O anúncio veio após países europeus enviarem forças militares à Groenlândia nesta semana, em meio às tensões provocadas pelas ambições do presidente norte-americano sobre o território dinamarquês.
- Nem as autoridades da Groenlândia nem as da Dinamarca aceitaram as intenções de Trump e insistem no respeito à soberania do território. Representantes dinamarqueses se reuniram com altos funcionários dos EUA na quarta-feira (14), sem sucesso em tranquilizar a situação. "Seguimos tendo um desacordo fundamental", declarou o chanceler da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, após o encontro na Casa Branca.
- Enquanto isso, Moscou acompanha de perto a situação. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou na sexta-feira (16) que a Rússia parte do princípio de que "a Groenlândia é território do Reino da Dinamarca" e lembrou que Trump "já disse que o direito internacional não é prioridade para ele", inaugurando uma situação "extraordinária".
- Já a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, declarou na quinta-feira (15) que países europeus estão se tornando vítimas de um precedente que eles próprios criaram, em referência à intervenção da OTAN na Guerra do Kosovo. Zakharova avalia que, ao "arrancarem e separarem ilegalmente" Kosovo da Sérvia, esses países "não imaginavam que acabariam caindo em um abismo" de um precedente que se voltaria contra eles mesmos. "Sirvam-se do que prepararam. Não se aceitam devoluções", declarou.


