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Confinamento, controle e sexo sob coerção: o inferno no "paraíso caribenho" de Julio Iglesias

Duas mulheres tiveram suas identidades protegidas ao prestar depoimentos sobre suas respectivas experiências de trabalho para o cantor espanhol, descrevendo um abiente de assédio, controle e terror.
Confinamento, controle e sexo sob coerção: o inferno no "paraíso caribenho" de Julio IglesiasGettyimages.ru / Paras Griffin

Ex-funcionárias das mansões do cantor espanhol Julio Iglesias em Punta Cana, na República Dominicana, e Lyford Cay, nas Bahamas, acusam o artista de agressões sexuais e abuso de poder durante o desempenho de suas funções em 2021.

Publicada na terça-feira (13), uma reportagem exclusiva do portal espanhol de notícias ElDiario.es e da Univisión Noticias — que investigam os casos há três anos — divulgou os relatos de duas mulheres que trabalharam para o cantor, na posição de empregada doméstica e fisioterapeuta, e descrevem um ambiente de controle, assédio e terror.

Os eventos descritos atravessam acusações de maus-tratos, humilhação, abuso de poder, assédio moral e sexual, que ocorreram quando o artista de renome internacional tinha 77 anos. Comparativamente, a mais jovem das mulheres envolvidas na denúncia tinha apenas 22 anos.

Abusos reiterados

Uma empregada doméstica identificada como Rebeca — um pseudônimo adotado para proteger sua identidade —, afirma ter sido constrangida a ter relações sexuais com Iglesias e outras mulheres, sendo submetida a tapas, mordidas e humilhações severas.

Ela alega que, durante os 10 meses em que trabalhou para o cantor, além de cumprir turnos exaustivos das 8h às 23h, era obrigada a ir ao quarto dele quase todas as noites.

Lá, ela era submetida a violações sexuais, sendo penetrada pelos dedos de Iglesias diante da presença de outra funcionária hierarquicamente superior. Rebeca reporta que os atos lhe causavam dor considerável e eram reiterados de maneira consistente, apesar de se recusar repetidamente a participar.

Outra trabalhadora, identificada como Laura, afirma que o cantor, mais de uma vez, aproximou-se e lhe beijou contra sua vontade, apalpando seus seios.

Ambas as entrevistadas indicam que esse tipo de abusos eram comuns em suas mansões e eram praticados com o conhecimento e a colaboração das mulheres responsáveis ​​pela administração da casa.

Medo e coerção

Segundo as acusações divulgadas na reportagem, as mulheres não tinham contratos formalizados por escrito com Iglesias e exerceram suas funções durante as restrições sanitárias em meio à pandemia do Covid-19. As mulheres não tinham permissão para sair das mansões, sob justificativa de receio de contágio do cantor idoso. Os funcionários homens, entretanto, eram permitidos entrar e sair das instalações, durante momentos em que a República Dominicana estabeleceu regras de isolamento somente durante o período noturno.

Especificam que o salário, que incluía moradia e alimentação, girava em torno de 350 euros.

"Julio é uma pessoa muito controladora", declarou Laura, reafirmando o uso do medo como instrumento para que suas funcionárias lhe obedecessem e permanecessem sob seu controle.

"Ele ameaça demitir você e constantemente te lembra que trabalhar para ele é a melhor coisa que já te aconteceu. Ele está sempre te lembrando quais são as regras, o que você pode e não pode fazer", revelou.

Entre o controle da comida consumida pelas funcionárias e até do ciclo menstrual, as mulheres ainda apontam que os abusos verbais eram frequentes, inclusive na frente de outros funcionários ou convidados. As entrevistadas relatam que as "casas dos sonhos" do cantor eram soterradas por maus-tratos normalizados e constantes explosões de raiva, caso Iglesias fosse contrariado, deixando as trabalhadoras em constante estado de tensão e alerta.

Os constrangimentos sexuais eram favorecidos por um ambiente de imposição, por vezes violenta, dos desejos do cantor, restringindo a possibilidade de negação e resistência das vítimas; e a desprezando, quando se negavam ou resistiam. 

Rebeca relata episódios, durante crises de dores ciáticas do cantor, em que foi forçada a lamber seu ânus e pênis durante toda uma madrugada, sob alegações de que isso aliviava suas tensões. "Quando eu parava ou adormecia, ele puxava minha cabeça para trás, para que eu seguisse", declarou a mulher à publicação.

"Você se sente obrigada a fazer isso", diz Rebeca sobre a pressão sexual. "Na maioria das vezes [...], eu nem sequer pensava no medo de perder meu emprego. Era algo que ele te forçava a fazer. Ele criava uma espécie de poder sobre você, como se você tivesse que fazer isso de qualquer jeito", explica.

A reportagem afirma que nem Julio Iglesias, nem sua esposa, Miranda Rijnsburger, apresentaram resposta após tentativa de contato pelos veículos de imprensa, assim como seu advogado ou qualquer das funcionárias responsáveis ​​por suas casas.