Fernando Belaúnde Terry (1912-2001), arquiteto formado nos EUA e duas vezes presidente do Peru (1963-1968 e 1980-1985), deixou um legado marcado por decisões polêmicas, desde concessões a empresas estrangeiras até o uso de armas químicas contra povos indígenas, deixando um legado que ainda divide opiniões.
A 'Conquista' do Peru
Belaúnde Terry nasceu em Lima, em 1912. Grande parte de sua formação escolar ocorreu no exterior, primeiro na França e depois nos Estados Unidos, onde se formou em arquitetura em 1935. Belaúnde se candidatou às eleições presidenciais de 1956, 1962 e 1963, conquistando a vitória na terceira tentativa, em aliança com o partido da Democracia Cristã, iniciando seu primeiro mandato presidencial.
Seu governo foi profundamente influenciado pela ideologia exposta em seu livro "A Conquista do Peru pelos Peruanos", em que pregava a exploração dos recursos da Amazônia e outras regiões do país.
Essa visão teve consequências trágicas em outubro de 1964. Sob pressão de empresas madeireiras e promovendo a narrativa de "índios selvagens", Belaúnde autorizou uma operação militar contra o povo indígena Matsés, no norte da Amazônia. A ação incluiu bombardeios com napalm, justificados pelo governo sob a acusação infundada de que os indígenas formavam guerrilhas. O episódio permanece como uma mancha na história dos direitos indígenas no país.
Seu primeiro mandato terminou de forma abrupta em 1968, após um escândalo de corrupção, em que Belaúnde foi acusado de conluio com a empresa americana International Petroleum Company (IPC). O Acordo de Talara, que estatizou poços petrolíferos da IPC sob o governo de Belaúnde, manteve com a empresa a refinaria de Talara e suas distribuidoras, obrigando a IPC a comprar todo o petróleo explorado pelo Estado para refiná-lo — contrariando determinações legais de transferência de todas as instalações da IPC, em razão de suas dívidas.
Eventualmente, veio a público a informação de que o Acordo de Talara continha uma página desaparecida, que estabelecia o preço do petróleo a ser pago ao Estado. O fato passou a ser referido como o "Caso da Página 11", que levou a acusações de se tratar de uma omissão deliberada. O escândalo levou a um golpe de estado, liderado pelo general Juan Velasco Alvarado, que exilou Belaúnde em Buenos Aires.
Retorno à cadeira
Belaúnde regressou ao país em 1978, durante a ditadura militar do general Francisco Morales Bermúdez (1975-1980), e foi reeleito presidente em 1980. Seu segundo mandato foi dominado pelo combate à guerrilha comunista Sendero Luminoso. Em resposta à escalada de violência, Belaúnde decretou estado de emergência e enviou as Forças Armadas para a região andina.
Em 1983, a organização de direitos humanos Anistia Internacional enviou uma carta ao presidente, denunciando a execução de centenas de camponeses pelas forças de segurança. Belaúnde desconsiderou as acusações e manteve a estratégia militar.
Finalizando seu mandato presidencial, em 1985, Belaúnde assumiu uma cadeira como senador vitalício. Entretanto, seu mandato no Congresso foi interrompido em 1992, quando o então presidente Alberto Fujimori (1990-2000) dissolveu a Câmara Alta durante o autogolpe. Belaúnde Terry faleceu em Lima, em 2002, com 89 anos.