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Conheça a história das mulheres que forjaram a liberdade na América Latina

Mulheres como Bartolina Sisa, Juana Azurduy, Policarpa Salavarrieta e Manuela Sáenz relembram a necessidade de luta, organização e coragem para conquista da soberania.
Conheça a história das mulheres que forjaram a liberdade na América LatinaWikimedia / José María Espinosa Prieto / Marco Salas Yepes

A história da luta pela independência da América Latina não está restrita aos homens. As mulheres assumiram protagonismo nesse processo, com exemplos de coragem e bravura que ressoam nos dias atuais, quando novas formas de dominação buscam atuar sobre os países da região.

Os exemplos de Bartolina Sisa, Juana Azurduy, Policarpa Salavarrieta e Manuela Sáenz nos fazem lembrar do custo da soberania dos países latino-americanos, com a necessidade de luta, organização e coragem por parte do povo latino-americano. Elas inspiram o poder da resistência, em uma época que a influência estrangeira é imposta também pelas sanções, bloqueios e controle da informação.

Bartolina Sisa

Mulher aymara e nascida na Bolívia, Bartolina tinha que conviver com a repressão do governo espanhol desde infância. Seus pais foram comerciantes, e por isso ela enfrentou desde cedo a bruta realidade da pobreza e humilhação sofridas por seu povo. 

Com 25 anos de idade, juntou-se a Tupac Katari para organizar um exército de indígenas para defender sua independência. Bartolina liderou o movimento com sucesso, inclusive no cerco a La Paz, que durou 109 dias. 

Após grande resistência, os espanhóis capturaram Sisa e a condenaram à morte em 1782. Atualmente, o dia 5 de setembro relembra a memória da resistência das mulheres indígenas por dignidade, terra e soberania.

Juana Azurduy

Juana Azurduy de Padilla nasceu em Chuquisaca em 1780. Filha de mãe indígena e pai espanhol, ficou órfã ainda jovem. Em 1802 casou-se com Manuel Padilla e teve quatro filhos. A partir de 1809, com o início das revoltas populares no Alto Peru, Juana participou ativamente da luta pela independência, unindo-se em 1810 ao exército libertador de Manuel Belgrano, que lhe presenteou um sabre em reconhecimento à sua coragem.

Durante os conflitos, Juana organizou o Batalhão Leal e participou de importantes batalhas, como a de Ayohuma em 1813. A guerra trouxe grandes perdas pessoais: suas terras foram confiscadas, ela foi capturada com os filhos e, em meio a fugas pelas montanhas, perdeu todos eles por fome, doenças e sede. Mesmo grávida, continuou combatendo o exército realista e, após a morte de seu marido, lutou ao lado das forças de Martín Güemes.

Após a independência da Bolívia em 1825, Juana tentou recuperar suas propriedades, mas não foi atendida. Viveu os últimos anos em extrema pobreza em Salta e Jujuy. Faleceu em 1862, esquecida pelo Estado que ajudou a libertar. Um século depois, seus restos mortais foram transferidos para Sucre, onde hoje é lembrada como heroína da independência sul-americana.

Policarpa Salavarrieta

Policarpa Salavarrieta, conhecida como "La Pola", foi uma heroína da independência colombiana, nascida por volta de 1793–1794, provavelmente em Guaduas, no então Vice-Reino da Nova Granada. Cresceu em uma família respeitada, porém sem título nobre, e ficou órfã ainda jovem após uma epidemia de varíola. Trabalhou como costureira, atividade que mais tarde lhe permitiu circular entre diferentes grupos sociais.

Durante a reconquista espanhola, Policarpa envolveu-se ativamente na causa patriótica. Ao mudar-se para Bogotá com seu irmão Bibiano, passou a atuar como espiã do movimento independentista. Enquanto costurava para mulheres realistas, obtinha informações sobre tropas, armas e planos do inimigo, que eram repassadas aos guerrilheiros. Também ajudou no recrutamento, no envio de mensagens e na obtenção de recursos, tornando-se uma figura essencial da resistência.

Em 1817, foi denunciada, capturada e presa pelas autoridades espanholas. Condenada à morte, Policarpa foi fuzilada em Bogotá em 14 de novembro de 1817. Enfrentou a execução com grande coragem, denunciando o domínio espanhol até o fim. Sua morte causou forte impacto na população e reforçou a oposição ao regime colonial, transformando La Pola em um símbolo duradouro de coragem e patriotismo na Colômbia.

Manuela Sáenz

Manuela Sáenz foi uma figura fundamental nas lutas de independência da América Latina e ficou conhecida como "a Libertadora do Libertador". Manuela destacou-se não apenas por sua relação com Simón Bolívar, mas por seu compromisso profundo com o ideal de liberdade e com a construção das novas repúblicas americanas.

Nascida em Quito em 1797, filha ilegítima de uma família aristocrática, Manuela enfrentou desde cedo o preconceito social. Educada em convento, rompeu com as normas impostas às mulheres de sua época e participou ativamente das campanhas independentistas. Lutou, organizou tropas, cuidou de feridos, atuou como informante e conselheira política. Sua coragem e inteligência lhe renderam reconhecimento de líderes como San Martín, que a condecorou, e do próprio Bolívar, que confiava a ela assuntos estratégicos e políticos.

Apesar de sua importância histórica, Manuela foi perseguida, difamada e condenada ao esquecimento após a morte de Bolívar. Viveu seus últimos anos no exílio, em extrema pobreza, e morreu em 1857 no porto de Paita. Ainda assim, sua figura sobrevive como símbolo de liberdade, transgressão e força feminina. 

Reconhecimento atual

O fato de Bartolina Sisa ser hoje um símbolo dos movimentos indígenas, Juan Azurduy ter dado seu nome a praças e monumentos, Policarpa aparece nos programas escolares como heroína da independência da Colômbia, e Manuela Sáenz ser justificada como referência feminista, expressa o processo de reinterpretação histórica do ponto de vista do gênero e da descolonização. Em uma época marcada por uma nova intervenção externa, suas trajetórias, unidas pela geografia andina, oferecem ao Sul Global algo mais do que memória: um guia vivo de desobediência diante de qualquer força que pretenda redefinir o destino dessas terras.

Confira a lista de lutadores latino-americanos contra o imperialismo, agora completado com Nicolás Maduro.