A atuação recente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América Latina elevou o grau de incerteza para empresas canadenses que investiram bilhões de dólares na região nas últimas décadas, informou o jornal canadense The Globe and Mail neste domingo (11).
Segundo o jornal, a mudança de postura está associada à chamada "Doutrina Donroe", que prevê maior influência norte-americana no hemisfério ocidental e já provoca reavaliações de risco no setor privado.
Trump intensificou críticas e ameaças a governos latino-americanos, incluindo declarações sobre a Colômbia e ações diretas na Venezuela. A publicação apontou que o movimento ocorre em um contexto de forte presença de empresas canadenses, sobretudo do setor de mineração e financeiro, em países como Colômbia, Peru, Chile e México.
Investimentos sob pressão
Companhias como Teck Resources, First Quantum Minerals, Agnico Eagle, Pan American Silver e Aris Mining mantêm operações relevantes na região. O CEO da Aris Mining, Neil Woodyer, afirmou que a retórica de Trump gera ruído, mas não indica, até o momento, uma mudança imediata de regime na Colômbia, por exemplo.
"Trump joga um jogo incomum. As pessoas entendem isso", disse.
Avaliação semelhante foi feita pelo presidente do Bank of Nova Scotia, Scott Thomson, que classificou a reaproximação dos EUA com a América Latina como positiva no longo prazo. O banco é um dos maiores credores da região, com operações em vários países.
Disputa por influência
A nova estratégia dos Estados Unidos foi formalizada em um documento de segurança nacional divulgado em novembro de 2025, que afirma que Washington vai "reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe" para garantir acesso a áreas estratégicas.
Rebatizada de "Doutrina Donroe", a política mira especialmente a crescente influência da China, que investiu cerca de US$ 240 bilhões na América Latina em setores como energia, mineração e infraestrutura.
Analistas apontaram ao jornal que a tentativa de reduzir a presença chinesa e de outros atores, como Rússia, pode aumentar a instabilidade regional.
"Expulsar a China não será fácil para os Estados Unidos", disse Rafael Ch, analista da Signum Global Advisors.
Cautela e ajuste de risco
Especialistas do mercado financeiro afirmaram ao the Globe and Mail que a instabilidade política sempre foi incorporada aos modelos de investimento na região, mas que o fator Trump adiciona um novo nível de incerteza.
"Ativos em jurisdições menos estáveis normalmente negociam com desconto por causa do risco político", explicou Onno Rutten, da Mackenzie Investments.
Apesar disso, investidores não indicam retirada em massa. A avaliação predominante é de cautela, com ajustes nos prêmios de risco e maior flexibilidade operacional.
A percepção também é de que a volatilidade passou a ser um custo adicional de fazer negócios na América Latina sob a nova doutrina dos Estados Unidos.