
Canadá teme ser próximo alvo de Trump após operação dos Estados Unidos na Venezuela

O Canadá passou a tratar com maior seriedade declarações e ações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e o aumento da retórica sobre a tomada da Groenlândia. A informação é da Bloomberg, publicada neste sábado (10).
O discurso reforçou temores em Ottawa sobre ameaças à soberania canadense, diante de comentários anteriores de Trump sobre anexar o país como o 51º estado americano.

A apreensão ganhou força após declarações da administração americana de que "ESTE É O NOSSO HEMISFÉRIO", frase que, segundo analistas e autoridades canadenses, dá novo peso às falas de Trump, antes vistas como provocações políticas ou táticas de negociação comercial.
O tema ganhou espaço no debate público canadense após um artigo de opinião local alertar para a possibilidade de "coerção militar" por parte dos Estados Unidos. O texto sugeriu medidas como o fortalecimento da defesa civil e o desenvolvimento de estratégias de drones.
De acordo com a Bloomberg, para o pesquisador Thomas Homer-Dixon, "se houver uma tentativa de coerção militar contra nós, precisa ficar claro que o custo será enorme".
Autoridades e especialistas destacaram à Bloomberg que o interesse de Washington na Groenlândia, território democrático, estratégico no Ártico e membro da OTAN, ampliou a preocupação no Canadá, que compartilha características semelhantes.
Wesley Wark, ex-assessor do governo canadense, classificou os movimentos de Trump como "um alerta final de que os Estados Unidos não são mais o país que costumavam ser".
Resposta canadense limitada
O primeiro-ministro Mark Carney, eleito com a promessa de enfrentar Trump, adotou uma postura mais cautelosa após assumir o cargo. Embora tenha defendido o respeito à soberania da Groenlândia e da Dinamarca, evitou mencionar diretamente ameaças ao Canadá. Especialistas avaliam que uma invasão militar é improvável, mas alertam para riscos econômicos.
"Os Estados Unidos estão mais dispostos do que nunca a prejudicar a economia canadense conforme os interesses do presidente", afirmou Stephanie Carvin, da Universidade Carleton, à Bloomberg.
O Canadá enfrenta limitações militares, com menos de 100 mil integrantes nas forças regulares e de reserva, além de compromissos externos e desastres naturais que pressionam os recursos. O governo anunciou aumento de gastos em defesa e planos de expansão das reservas, mas os efeitos são de longo prazo.
Analistas também apontaram o risco de interferência política, especialmente diante do debate separatista na província de Alberta. Um organizador do movimento afirmou à Bloomberg ter mantido contatos com autoridades americanas, informação não confirmada pelo Departamento de Estado dos EUA.
No campo econômico, a revisão do acordo comercial USMCA surge como ponto sensível. Cerca de 85% do comércio entre Canadá e EUA é isento de tarifas, mas Trump pode usar o acordo como instrumento de pressão. Aproximadamente 70% das exportações canadenses têm os Estados Unidos como destino.
Para reduzir a dependência, Carney anunciou a meta de dobrar as exportações para outros países em dez anos e intensificou esforços diplomáticos, inclusive com a China. Analistas, no entanto, alertam que concessões sucessivas podem levar à "erosão gradual da soberania canadense".

