Como os EUA sustentaram Somoza e permitiram 40 anos de ditadura na Nicarágua

Família Somoza comandou o país com violência, censura e enriquecimento ilícito.

Na história da América Latina, não faltaram lutadores que enfrentaram o imperialismo e a coerção externa. Mas também houve os que se aliaram a esses interesses para consolidar seu próprio poder.

Foi o caso de Anastasio Somoza García, que nos anos 1930 deu início a uma das dinastias mais duradouras da região, marcada por repressão, assassinatos e enriquecimento às custas do sofrimento do povo.

Na Nicarágua da década de 1930, bastaram um terno bem cortado e fluência no inglês para que Somoza García convencesse Washington de que era o aliado ideal. Usando sua habilidade política, ele se projetou como peça estratégica para os interesses dos Estados Unidos e acabou se tornando o arquiteto de uma ditadura que se prolongaria por mais de 40 anos.

Conhecido como "Tacho", Somoza foi nomeado chefe da Guarda Nacional em 1933. Do alto desse cargo, organizou em 1934 a emboscada e o assassinato de Augusto C. Sandino, general que liderava a resistência nacional. No mesmo período, eliminou quase todo o comando sandinista. Dois anos depois, insatisfeito com o poder indireto, Somoza derrubou o presidente Juan Bautista Sacasa com eleições moldadas a seu favor e assumiu formalmente a presidência, iniciando a era da dinastia.

Durante seu governo, reprimiu brutalmente a população. Mas seu domínio foi interrompido em setembro de 1956, quando, em meio a um evento político em León, o poeta Rigoberto López Pérez conseguiu furar o esquema de segurança e disparou contra o ditador. López Pérez foi morto na hora, mas seu ataque marcou o fim do primeiro Somoza no poder.

A transição, no entanto, não trouxe liberdade. Poucos dias após o assassinato, seu filho Luis Somoza Debayle assumiu a presidência com total apoio de Washington. A violência e os abusos continuaram, agora sob o comando do herdeiro. Jovens opositores eram alvos constantes da repressão, e familiares de guerrilheiros também sofriam com a perseguição e o luto.

Enquanto a população era submetida a prisões, desaparecimentos e mortes, a família Somoza acumulava terras e riquezas. Estima-se que controlassem mais de 50% do território nacional. O império financeiro construído com ajuda de empresas e apoio externo garantiu luxo mesmo durante o exílio.

O terceiro e último da linhagem foi Anastasio Somoza Debayle, o "Tachito", educado desde os 10 anos em academias militares dos Estados Unidos. Nomeado inspetor-geral da Guarda Nacional — Força que funcionava como exército pessoal da família —, ele comandou o país sob a fachada de uma república constitucional. Foi nesse contexto que nasceu o Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), cuja força guerrilheira cresceu em paralelo ao aumento da rejeição popular.

Em 1972, um terremoto devastou a capital, Manágua. A tragédia foi usada por Somoza para desviar recursos internacionais, o que ampliou o descontentamento, inclusive entre empresários. Em 1978, cerca de um sexto do país já estava registrado como propriedade privada da família.

O resultado social foi devastador: o analfabetismo passou de 50% em áreas urbanas e chegou a 96% nas zonas rurais, onde também faltavam água potável e serviços de saúde. Estima-se que mais de 50 mil nicaraguenses tenham morrido ao longo da ditadura.

A dinastia somocista entrou para a história da América Latina como uma das mais longas e violentas. Ainda hoje, o impacto das décadas de opressão é lembrado por quem perdeu parentes ou sofreu diretamente com os abusos.