A história da América Latina está marcada por personagens que, longe de servir aos interesses nacionais, agiram em benefício próprio ou de potências estrangeiras. De gabinetes presidenciais a postos intermediários, esses nomes participaram de decisões que custaram vidas, liberdades e soberanias. Para os povos que carregam essas feridas, a história não os absolverá.
Alçado ao poder como um forasteiro político, Alberto Fujimori foi visto por milhões de peruanos como uma promessa de mudança diante do colapso econômico e do descrédito dos partidos tradicionais. Mas o que se seguiu ao seu triunfo eleitoral foi um governo marcado por autoritarismo, corrupção e graves violações de direitos humanos — uma trajetória que muitos no Peru descrevem hoje como uma traição ao seu povo.
Em 1990, o Peru vivia uma crise aguda: inflação superior a 7.000%, crescimento da violência armada e um cenário político instável. Contra todas as expectativas, Alberto Kenai Fujimori Nomod superou o renomado escritor Mario Vargas Llosa no segundo turno, com mais de 4 milhões de votos. Seu lema era simples: "honradez, tecnologia e trabalho".
Nascido em Lima, em 28 de julho de 1938, filho de imigrantes japoneses, Fujimori era um nome novo na política. Engenheiro agrônomo e professor universitário, apresentava-se como antissistema e defensor do povo. Porém, logo no início de seu mandato, implementou o chamado "Fujishock", um pacote de ajuste com cortes drásticos, eliminação de subsídios e políticas fiscais severas. O resultado foi um estouro social com protestos, mortes e repressão.
A repressão ganharia novos contornos com a atuação do Grupo Colina, organização ligada ao seu governo e responsável por massacres emblemáticos. Em 3 de novembro de 1991, 15 pessoas foram executadas no bairro Barrios Altos, em Lima.
No caso La Cantuta, em 18 de julho de 1992, nove estudantes e um professor foram sequestrados, torturados e mortos. "O único que espero é que encontrem algo do meu filho, algo", diz uma mãe que nunca obteve respostas.
Outro capítulo sombrio do seu governo envolveu denúncias de esterilizações forçadas. Mulheres, em sua maioria indígenas ou de baixa renda, relataram ter sido levadas à força para procedimentos sem consentimento. "Disseram que eu estava louca e me levaram à força sobre a maca", recorda uma das vítimas.
Em 5 de abril de 1992, Fujimori dissolveu o Congresso, alegando obstrução legislativa. O chamado "autogolpe" com apoio dos Estados Unidos marcou sua ruptura definitiva com o sistema democrático. Reestruturou o Judiciário e impôs uma nova Constituição, moldada para garantir sua permanência e poder.
Ao longo da década de 1990, o controle autoritário e os escândalos de corrupção se aprofundaram. Em 2000, os "Vladivídeos" — gravações de subornos comandados pelo assessor Vladimiro Montesinos — expuseram a rede de corrupção no governo. A revelação gerou indignação popular e precipitou sua queda. O Congresso declarou a presidência vaga em novembro daquele ano, e Fujimori foi proibido de ocupar cargos públicos por uma década.
A extradição do ex-presidente, em 2007, ocorreu após anos de fuga. Do Chile, foi enviado de volta ao Peru para enfrentar acusações por crimes de corrupção e violações de direitos humanos. Condenado em diferentes processos, recebeu um indulto humanitário em 24 de dezembro de 2017, concedido pelo então presidente Pedro Pablo Kuczynski.
Em 2023, uma decisão judicial permitiu sua saída do presídio. Para muitos, a medida foi mais uma afronta à memória das vítimas. "O Tribunal Constitucional ilegalmente... deu liberdade a um assassino, um criminoso como Fujimori", protestou uma manifestante na ocasião. "Para cada uma das 49 vítimas dessa ditadura assassina que até hoje não são encontradas".
A polarização deixada por seu governo segue viva no Peru. Fujimori, que um dia prometeu "honradez", é hoje lembrado por muitos como o símbolo de um líder que traiu a confiança de seu povo, deixando cicatrizes que o país ainda luta para superar.