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Traidores: o outro lado da história latino-americana

Ao longo dos séculos, homens e mulheres deram suas vidas pela independência, pela justiça social e pela soberania frente às potências estrangeiras.
Traidores: o outro lado da história latino-americanaGettyimages.ru / Imagem ilustrativa

A terra latino-americana é rica em histórias de heróis que lutaram pela liberdade e dignidade de suas nações. Ao longo dos séculos, homens e mulheres deram suas vidas pela independência, justiça social e soberania diante das potências estrangeiras. Seus nomes costumam ocupar livros didáticos, praças e monumentos, e fazem parte do imaginário coletivo dos povos que ainda hoje resistem a novas formas de dominação.

No entanto, a própria história do continente também conhece numerosos traidores, figuras que, em vez de defender os interesses de seus povos, alinharam-se com forças externas ou com elites locais corruptas, entregando recursos, soberania e vidas humanas em troca de poder, riqueza ou proteção estrangeira. Enquanto os heróis encarnam a memória da resistência, esses personagens representaram o outro lado da história latino-americana: o da entrega, da dependência e da renúncia à dignidade nacional.

  • Anastasio Somoza (1896–1956)

Anastasio Somoza foi o fundador da dinastia ditatorial que governou a Nicarágua de 1936 a 1979. Ele chegou ao poder como resultado de um golpe apoiado pelos Estados Unidos. Foi precisamente sobre ele que foi proferida a famosa frase atribuída a F. D. Roosevelt: “É um filho da mãe, mas é o nosso filho da mãe”. Somoza instaurou em seu país um regime de terror em massa. Ele também é lembrado por sua ampla corrupção pessoal e por servir aos interesses de corporações estrangeiras em detrimento do desenvolvimento nacional. Depois dele, seus filhos governaram com o mesmo espírito. Tudo isso levou a um amplo ódio popular e à derrubada do regime pelos sandinistas.

  • Fulgencio Batista (1901–1973)

Fulgencio Batista foi o ditador cubano que chegou ao poder duas vezes por meio de golpes: primeiro como líder de facto em 1933 (“revolta dos sargentos”), depois como presidente (1940–1944) e, posteriormente, por meio de um golpe militar sem derramamento de sangue em 1952. Ele anulou as garantias constitucionais, proibiu as greves, restabeleceu a pena de morte e reprimiu a oposição. Batista colaborou estreitamente com as empresas americanas e a máfia, permitindo-lhes controlar até 70% da economia de Cuba (açúcar, extração de recursos, serviços públicos, turismo e cassinos). Seu regime foi caracterizado pela corrupção, desigualdade e violência, o que provocou a Revolução Cubana.

  • Papa Doc (1907-1971) e Baby Doc (1951-2014)

François Duvalier (apelidado de Papa Doc) e seu filho Jean-Claude (Baby Doc) foram os ditadores do Haiti que governaram o país entre 1957 e 1986. François, que chegou ao poder em 1957 com o apoio dos Estados Unidos, instaurou um regime brutal: criou a milícia dos Tonton Macoutes, reprimiu a oposição e manteve um culto à personalidade baseado na mitologia vodu. Após sua morte em 1971, o poder passou para seu filho de 19 anos, Jean-Claude, que deu continuidade ao governo autoritário. Em 1986, pressionado por protestos em massa, Jean-Claude fugiu do país. Seu regime é associado ao terror, à corrupção e à pobreza, embora parte da população ainda sinta nostalgia pela “ordem” da época Duvalier.

  • Fernando Terry (1912–2002)

Fernando Terry foi duas vezes presidente do Peru (1963–1968 e 1980–1985) e líder do partido Ação Popular. Sua política foi frequentemente criticada por sua orientação pró-americana, incluindo reformas neoliberais que levaram à privatização de empresas estratégicas e ao agravamento da situação da população. Em 1968, foi acusado de conivência com a empresa norte-americana International Petroleum Company (IPC) na sequência da assinatura do Acordo de Talara nesse mesmo ano: embora formalmente os campos petrolíferos tenham passado para o Estado, a IPC manteve ativos-chave e, no contrato, desapareceu a página com o preço do petróleo que o Estado deveria receber da empresa. Isso gerou suspeitas de concessões deliberadas a interesses estrangeiros e serviu de pretexto para o golpe militar e sua derrubada.

  • Alberto Fujimori (1938–2024)

Alberto Fujimori foi um político peruano de origem japonesa, presidente do Peru de 28 de julho de 1990 a 17 de novembro de 2000. Ele realizou uma série de reformas econômicas neoliberais: privatização de empresas estatais (incluindo setores estratégicos e ferrovias) e atração de investimentos estrangeiros. Com o apoio dos Estados Unidos, ele realizou um autogolpe de Estado em 1992, usurpando as competências dos outros poderes. Seu regime está ligado a violações dos direitos humanos, uso de “esquadrões da morte” e esterilização forçada de setores pobres da população, incluindo membros de povos indígenas. Esse programa, que segundo alguns dados afetou até 300 mil mulheres, foi apoiado, entre outros, pela agência USAID.

  • Manuel Bonilla (1849–1913)

Manuel Bonilla foi presidente de Honduras entre 1903 e 1907 e entre 1912 e 1913. Colaborou estreitamente com a empresa norte-americana United Fruit Company. Em troca de apoio financeiro, Bonilla concedeu-lhe generosas concessões, incluindo direitos de exploração de recursos naturais e desenvolvimento de infraestruturas. Considera-se que, com ele, Honduras se tornou o protótipo da “república das bananas” do conto de O. Henry, “Os reis e o leite”. Apesar disso, sua figura é avaliada de forma ambivalente, pois durante seu governo foram criadas muitas instituições modernas, incluindo o Partido Nacional de Honduras, hoje uma das duas principais forças políticas do país.

  • Manuel Estrada Cabrera (1857–1924)

Manuel Estrada Cabrera foi presidente da Guatemala entre 1898 e 1920. Seu regime está ligado à repressão, à opressão da população indígena e à cooperação com empresas estrangeiras que exploravam os recursos do país, incluindo a United Fruit Company. Estrada Cabrera foi o protótipo do protagonista do romance de Miguel Ángel Asturias, El Señor Presidente (1946), uma obra notável da literatura latino-americana sobre a natureza da ditadura.

  • Jorge Ubico (1878-1946)

Jorge Ubico foi o ditador da Guatemala que governou de 1931 a 1944. Ele cedeu gratuitamente grandes extensões de terra à United Fruit Company, o que permitiu à corporação ampliar consideravelmente suas plantações e reforçar sua influência no país. Ubico também apoiou métodos severos de exploração dos trabalhadores nas plantações da empresa. Após sua derrubada em 1944, chegou ao poder o governo de Jacobo Arbenz, que tentou nacionalizar as terras da United Fruit Company. No entanto, em 1954, com a participação da CIA, foi organizado um golpe militar na Guatemala: o pró-americano Carlos Armas foi levado ao poder e as terras nacionalizadas foram devolvidas à UFC.

  • Juan Guaidó (1983)

É o político opositor venezuelano que, com o apoio externo dos Estados Unidos, em 23 de janeiro de 2019 se autoproclamou “presidente interino da Venezuela”, à margem dos procedimentos constitucionais. Suas ações foram acompanhadas por apelos à intervenção estrangeira, incluindo sanções econômicas e cenários militares. Apesar dos prolongados distúrbios que se seguiram, ele nunca chegou a exercer poder real dentro da Venezuela. Em 2022, a chamada “Assembleia Legislativa” da oposição votou a dissolução de seu “governo interino” e, pouco depois, a embaixada da Venezuela nos Estados Unidos, que estava sob seu controle, encerrou suas atividades.

LEIA NOSSA NOTA SOBRE OS HERÓIS DA TERRA LATINO-AMERICANA