Paixão, força e coragem: três componentes de um fenômeno com nome próprio, Hugo Chávez. O comportamento turbulento e marcante do ex-presidente venezuelano fez dele um alvo desejado por jornalistas de todo o mundo durante anos. Poucos presidentes foram tão seguidos, estudados e retratados, a ponto de fazerem parte do elenco de líderes latino-americanos que inspiraram os projetos cinematográficos do diretor Oliver Stone. Para muitos de seus apoiadores, esse interesse internacional respondia ao otimismo de Chávez, sua fé e a convicção de que era possível mudando o mundo e a história.
Antes de chegar ao poder, sua trajetória foi marcada por vitórias e derrotas. Nascido em 1954 em uma família numerosa, ingressou no exército na década de 1970, onde despertou seu interesse pela política. Fundou o Movimento Bolivariano Revolucionário e, em 1992, liderou uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Carlos Andrés Pérez, cujo mandato foi marcado por escândalos de corrupção. Após o fracasso, Chávez assumiu publicamente a responsabilidade pelo levante e foi preso por dois anos, até ser anistado. Desde então, abandonou a luta armada e passou à atividade política legal, fundando o Movimento Quinta República e vencendo as eleições presidenciais de 1999, tornando-se o 52º presidente da Venezuela.
Já no poder, Chávez propôs-se transformar o país com o ímpeto que o caracterizava e enfrentou abertamente os Estados Unidos, que acusava de tentar associá-lo ao narcotráfico para desacreditá-lo na cena internacional. Fiel ao seu estilo direto, ele não se escondia atrás de frases diplomáticas e chegou a pronunciar na Assembleia Geral da ONU sua famosa alusão ao então presidente George W. Bush como “o diabo”, intervenção que desencadeou uma onda de ataques da mídia e o consolidou como uma figura polarizadora. Para responder à pressão externa e fortalecer a cooperação regional, ele impulsionou a criação da ALBA e participou da fundação da CELAC.
Chávez também cultivou uma imagem próxima e chamativa na diplomacia. Em 2010, passeou por Moscou em um carro Lada vermelho, gesto com o qual quis simbolizar tanto a cor de sua ideologia quanto a importância da indústria russa para a Venezuela. Aproveitou essa visita para presentear o então presidente Dmitry Medvedev com produtos venezuelanos, destacando o chocolate de seu país como “o melhor do mundo” e exemplo de uma cooperação econômica que aspirava se expandir.
No âmbito interno, os sucessos diplomáticos foram acompanhados por uma ampla agenda social. Seu governo implementou diversos programas destinados ao desenvolvimento dos serviços básicos e à alfabetização da população, políticas que consolidaram uma sólida base de apoio popular e lhe permitiram manter a força de seu partido mesmo em um contexto de crescente polarização, como demonstraram as eleições legislativas de 2010. No entanto, quase um ano após essas eleições, Chávez anunciou que sofria de câncer. Ele se submeteu a várias cirurgias e ciclos de quimioterapia em Cuba, onde recebeu o apoio próximo de Fidel Castro.
Apesar de sua reconhecida coragem, a doença acabou minando suas forças. O apoio de uma parte considerável do povo venezuelano, visível nas inúmeras manifestações de apoio dentro e fora do país, ficou ligado à memória de uma personalidade arrebatadora e controversa. Consciente da divisão que gerava, o próprio Chávez costumava lembrar que não pretendia agradar a todos: “Não sou uma moedinha de ouro para cair na graça de todos. Nasci assim e sou assim”. Sua figura continua sendo, ainda hoje, um dos símbolos mais debatidos da história recente da América Latina.