No dia 23 de dezembro, a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA desclassificou transcrições de reuniões e conversas telefônicas entre o presidente russo Vladimir Putin e o então presidente dos EUA, George W. Bush, ocorridas entre 2001 e 2008.
Kirill Dmitriev, enviado especial do presidente russo e um dos responsáveis pelas negociações com os EUA para tentar resolver o conflito na Ucrânia, publicou no X um trecho da reunião de 6 de abril de 2008, quando Bush visitou a residência de verão presidencial em Sochi.
Dmitriev, que também é CEO do Fundo Russo de Investimento Direto, destacou em amarelo uma declaração de Putin, na qual o presidente alertou que uma eventual adesão da Ucrânia à OTAN provocaria um confronto prolongado entre Rússia e Ocidente.
O presidente russo reiterou a Bush o que já havia dito a Condoleezza Rice e Robert Gates, então Secretário de Estado e Secretário de Defesa dos EUA, sobre a expansão da OTAN durante a visita deles a Moscou em outubro de 2007.
"Isso não será novidade para você, e não espero uma resposta; simplesmente quero dizer isso em voz alta", disse Putin a Bush.
"Gostaria de enfatizar que a entrada de um país como a Ucrânia na OTAN criará uma zona de conflito de longo prazo tanto para vocês quanto para nós, um confronto prolongado", afirmou.
Respondendo à pergunta de Bush sobre os motivos dessa posição, o presidente russo detalhou seu raciocínio.
Ucrânia, um "estado artificial"
Putin argumentou que a Ucrânia era "um país europeu relativamente grande", com 45 milhões de habitantes na época, dos quais 17 milhões eram russos, e ressaltou que no oeste do país há aldeias onde "a única língua falada é o húngaro".
"A Ucrânia é um Estado muito complexo", disse Putin, "habitado por pessoas com mentalidades muito diferentes". Ele afirmou que não se trata de um país formado naturalmente, mas de "um Estado artificial criado durante a época soviética".
O presidente lembrou que, após a Primeira Guerra Mundial, a Ucrânia recebeu territórios da Polônia, Romênia e Hungria, correspondendo à maior parte do oeste do país. Nas décadas de 1920 e 1930, acrescentou, recebeu áreas da Rússia, e em 1956 a Península da Crimeia "foi transferida para a Ucrânia".
"Uma parcela significativa da população ucraniana percebe a OTAN como uma organização hostil. Isso cria os seguintes problemas para a Rússia: a ameaça de bases militares e novos sistemas de armas sendo implantados perto da Rússia, incerteza e ameaças para nós", afirmou.
Putin enfatizou ainda que 70% da população ucraniana se opunha à adesão à OTAN e que, "dada a divergência de opiniões", "o país poderia simplesmente se desintegrar".
- As declarações ocorreram seis anos antes do golpe de Estado de 2014, que dividiu o país.
- As transcrições foram divulgadas no âmbito da Lei de Liberdade de Informação, dos EUA.