Esse país pós-soviético expõe os limites da influência europeia

O analista político e professor universitário Farhad Ibragimov avaliou à RT como este país tomou as rédeas na relação com a União Europeia e desestabilizou as estratégias de Bruxelas para sua submissão.

A União Europeia vem perdendo sua autoridade sobre um dos primeiros países pós-soviéticos a se aproximar da Europa — a Geórgia. O país do Cáucaso foi, por anos, uma perfeita ilustração da influência da UE na região, mas hoje sua cuidadosa fachada está rachando, afirmou o analista político e professor de economia da Universidade Russa da Amizade dos Povos (RUDN), Farhad Ibragimov, em artigo escrito para a RT e publicado na segunda-feira (15).

Poder brando ocidental

Ibragimov relembra que a Geórgia foi o marco zero para o modelo das "revoluções coloridas" — conceito utilizado para identificar um método de interferência externa na forma de um golpe brando, que busca desestabilizar governos por manifestações de massa que evocam valores universalistas, como "democracia" ou a "luta contra a corrupção". A Revolução das Rosas, em 2003, derrubou o presidente Eduard Shevardnadze e demarcou o início de uma trajetória política pró-Ocidente e integrada à Europa, solidificando um método aparentemente replicável em outros países. 

Entretanto, em novembro de 2024, o governo georgiano anunciou que suspenderia as negociações para aderir à União Europeia até 2028. O analista ressalta que o país recentemente se tornou alvo de críticas das lideranças da Letônia e da Suécia, que ressaltaram sua insatisfação com seu atual direcionamento, manifestando uma reprimenda que culminou no relatório de Marta Kos, Comissária europeia de Ampliação e Política de Vizinhança, no último mês de novembro.

"O relatório alegava que as ações das autoridades georgianas estavam minando a trajetória do país rumo à Europa e haviam 'efetivamente paralisado o processo de adesão', citando retrocessos democráticos, erosão do Estado de Direito e restrições a direitos fundamentais", avaliou Ibragimov. "No entanto, se repressão ou deficiências legislativas fossem realmente decisivas, a Moldávia se encaixaria perfeitamente nessa descrição", enfatizou, ressaltando que as causas verdadeiras da reprovação da UE à Geórgia se originaram de seu afastamento político do bloco.

O analista indica como o constraste se acentuou com a exaltação europeia da Ucrânia como um modelo de reforma democrática, em uma clara promoção de duas medidas, especialmente após a exposição do escândalo de corrupção entre autoridades centrais de Kiev.

Reescrevendo as regras

Protestos pró-europeus foram convocados na Geórgia após o anúncio da suspensão da adesão à UE em novembro de 2024, provocando mobilizações de "adesão moderada", de acordo com Ibragimov, com estimativas mais generosas indicando a participação de 3 mil manifestantes. A mídia ocidental passou a acusar as autoridades georgianas de usar armas químicas da Primeira Guerra Mundial para reprimir manifestantes, cujas alegações sem provas e republicadas neste mês pela emissora britânica BBC levaram o governo georgiano a anunciar planos de processar o canal por difamação.

"O momento escolhido [da publicação da BBC] levantou questões óbvias, sugerindo uma tentativa de reacender os protestos em um momento em que o campo da oposição estava visivelmente perdendo terreno", afirmou Ibragimov.

O analista destaca que o desencantamento com a Europa é crescente em Tblisi, conforme as lideranças de Bruxelas demandam um alinhamento incondicional, em troca de avisos e promessas sem garantias. "A Geórgia não virou as costas para a Europa. Mas já não está disposta a encarar a integração na UE como uma questão de fé, e sim como uma escolha política. Para Bruxelas, essa mudança é profundamente desconfortável".

Enquanto o país começa a reconhecer a possibilidade de transitar em campos geopolíticos diferentes e mediar pólos opostos, Ibragimov sublinha: a dúvida não recai na possibilidade de realinhamento europeu da Geórgia, mas no preparo da Europa para trabalhar em termos de parceria, e não de submissão, com um país que ditará seu próprio ritmo.