Fentanil: o que é a 'droga zumbi' e por que ela gera crise nos EUA?

A proliferação em massa dessa droga no mercado ilegal fez com que os cartéis de narcotráfico a considerassem "a mais lucrativa", por gerar enormes dividendos.

O fentanil, até pouco tempo desconhecido para muitos, ganhou notoriedade global nos últimos anos. Esta potente droga, amplamente utilizada na medicina sob regulamentação legal, tornou-se uma das favoritas no mercado ilegal de entorpecentes devido à facilidade de fabricação e à capacidade de criar dependência química em seus usuários.

O nome da droga aparece com frequência nos discursos de políticos e autoridades governamentais, que alertam para uma crise de dependência. O consumo do entorpecente é associado a um impacto profundo no sistema de saúde americano, e atribuído a uma atividade criminal de organizações de narcotráfico em escala global.

Em 2023, a Fundação do Espanhol Urgente (Fundéu-RAE), promovida pela Real Academia Espanhola, incluiu 'fentanil' como uma das finalistas à "palavra do ano". A seleção partiu de uma análise que considerou sua presença nos meios de comunicação, o debate social gerado e seu interesse sob o ponto de vista linguístico.

A proliferação massiva dessa droga no mercado ilegal — onde é conhecida por apelidos como Apace, Dance Fever, Friend, Goodfellas, He-Man, Jackpot, Heroína Branca, N-30 e Tango, entre outros — fez com que os cartéis a considerem a mais lucrativa, por gerar enormes dividendos. Sua produção ilícita conseguiu superar substâncias psicotrópicas historicamente notórias, como maconha, cocaína, heroína e metanfetaminas.

De acordo com o Centro de Vícios dos Estados Unidos, o fentanil reúne várias características que o tornam mais fácil de consumir do que outras drogas. A circulação em ambos os mercados legal e ilegal viabiliza o acesso por diferentes formas, seja comprimido, adesivo transdérmico, pílula, tablete, líquido injetável ou pó. Assim, o fentanil pode ser ingerido, inalado, fumado ou injetado.

Seu efeito é rápido e produz uma sensação intensa, porém breve. Ele é um entorpecente sintético e, portanto, mais potente do que outras substâncias. Entretanto, pode ser extremamente letal e viciante mesmo em doses mínimas, às vezes, bastando uma única exposição.

Como o fentanil se tornou tão popular?

Uma publicação do veículo The Conversation aponta que a crise gerada pelo uso do fentanil teve origem no uso indiscriminado de oxicodona e hidrocodona desde o final dos anos 1990. Conhecidos pelos nomes comerciais OxyContin e Vicodin, essas substâncias foram disseminadas por meio de prescrições médicas massivas.

Seu uso como analgésico médico remonta a mais de meio século, especialmente para aliviar dores intensas associadas a tratamentos de câncer ou pós-operatórios, como alternativa à morfina ou como complemento à anestesia em cirurgias.

"[O fentanil] tornou-se o opioide mais utilizado para analgesia intraoperatória", avalia o artigo científico de Teodoro H. Stanley, publicado na ScienceDirect. "Desde o início da década de 1990, o adesivo transdérmico de fentanil está disponível para o tratamento da dor crônica em todas as formas de câncer, bem como para a dor persistente e intensa de muitas doenças não cancerosas", aponta o pesquisador.

A substância, entretanto, vai perdendo efeito à medida que a pessoa se habitua ao seu consumo, exigindo doses cada vez maiores para aliviar a dor ou a ansiedade. Esse processo, especialmente quando dissociado da prescrição médica em favor do consumo recreativo, desencadeia um quadro progressivo de dependência.

Uma tentativa de restringir prescrições surgiu diante do crescimento da dependência química, levando usuários a buscarem outras drogas opioides por vias ilícitas, como a heroína. Por ser uma substância 50 vezes mais forte que a heroína, segundo o Departamento Antidrogas dos EUA (DEA), o fentanil começou a ganhar notoriedade.

'Mortos-vivos'

Uma vez que o acesso legal ao fentanil por meio de diversos medicamentos foi descoberto, o uso do opioide sintético se massificou. Isso culminou na chamada epidemia da "droga zumbi" ou dos "mortos-vivos". O efeito catatônico da droga é ainda intensificado pelas práticas de venda e consumo, que promovem a mistura com outras substâncias ilegais para torná-lo mais potente, viciante e, consequentemente, letal.

Um dos efeitos mais característicos do fentanil em seus usuários é a capacidade de transformá-los em uma espécie de zumbis ou "mortos-vivos". Esse fenômeno ocorre porque a droga possui um efeito sedativo extremamente potente, podendo deixar as pessoas estáticas, adotando uma posição corporal curvada (como uma letra "U" invertida), caminhando de forma extremamente lenta ou apresentando-se letárgicas, com o rosto caído e completamente desconectadas da realidade.

O fentanil provoca uma redução significativa da função respiratória, fazendo com que os lábios, a pele e as unhas dos dependentes adquiram uma tonalidade azulada devido à falta de oxigênio.

Quando o nível de dependência atinge seu limite, os usuários não conseguem fazer outra coisa senão buscar a droga a qualquer custo. Muitos perdem empregos, moradias, passam a viver nas ruas, esquecem-se de comer, dormir, tomar banho e têm sua aparência pessoal drasticamente deteriorada — culminando em um visual debilitado e visivelmente doente.

Alta taxa de mortalidade

A alta mortalidade entre dependentes de fentanil ocorre principalmente por paradas respiratórias. Tyler Trahan, médico internista e especialista em dependência química do sistema de saúde Henry Ford Health (EUA), destacou em uma reportagem que "o risco de overdose por fentanil é tão elevado devido à sua alta potência", acrescentando que "apenas dois miligramas — equivalente ao peso de alguns grãos de areia — já podem constituir uma dose letal".

Dados oficiais do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos confirmam que 76% das mortes por overdose registradas no país envolvem um opioide (seja prescrito ou ilegal). Desse total, 69% estão relacionadas a opioides sintéticos diferentes da metadona (principalmente fentanil e seus análogos), 28% são devidas à cocaína e 33% envolvem psicoestimulantes como a metanfetamina.