A megaoperação policial que resultou em 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, segue gerando repercussão e denúncias.
A ação, realizada na última terça-feira (28), é considerada a mais letal da história do estado e faz parte da Operação Contenção, voltada ao combate à expansão territorial do Comando Vermelho (CV) em áreas metropolitanas.
Segundo informações da Polícia Civil, 2.500 agentes participaram da ofensiva, que tinha como objetivo o cumprimento de 100 mandados de prisão. A operação, no entanto, provocou críticas e questionamentos sobre violações de direitos humanos e descumprimento de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).
A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro solicitou ao STF autorização para a realização de laudos paralelos aos oficiais nos corpos das vítimas. No pedido, o órgão alega "massiva violação de direitos humanos" e cita o descumprimento da ADPF das Favelas, decisão que estabelece protocolos para reduzir a letalidade policial em comunidades.
Entre as irregularidades apontadas pela Defensoria estão a ausência de ambulâncias, o fechamento de escolas e postos de saúde, além da falta de isolamento das áreas de confronto, o que, segundo o órgão, compromete a perícia.
Em entrevista para Michele de Mello, correspondente da RT no Brasil, a defensora pública do Rio de Janeiro, Fabiana Silva, afirmou na quinta-feira (30) que o impacto da operação é "imensurável", afetando a garantia de direitos sociais como Saúde e Educação.
'Não houve morte, houve tortura'
Familiares de vítimas descreveram cenas de horror durante e após os confrontos. Andrielly Gouveia de Sousa contou que o corpo do cunhado só pôde ser resgatado horas depois da morte.
Outra moradora, Jéssica Marques, relatou a gravidade do que presenciou, classificando as cenas como "terror". Segundo ela, havia sinais de tortura nos cadáveres, incluindo "queimaduras, facadas e corpos degolados". "Nenhum filme chega aos pés das cenas que eu vi", afirmou.
Polícia apura fraude em denúncias
Diante das denúncias de que corpos teriam sido mutilados ou decapitados, o secretário da Polícia Civil, Felipe Curi, negou que a responsabilidade seja da corporação e informou que foi instaurado um inquérito para apurar fraude processual.
Segundo Curi, alguns veículos usados na remoção dos cadáveres teriam sido furtados, o que pode ter causado ferimentos adicionais com o objetivo de "chamar a atenção da imprensa".
"Quem disse que foi a polícia que cortou a cabeça deles?", questionou em coletiva após imagens de corpos mutilados e decapitados serem divulgadas pela imprensa.