
Barroso afirma ser a favor de considerar dois crimes como um único no julgamento de atos golpistas

O ministro Luis Roberto Barroso, durante o domingo (28), seu último dia como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), mostrou-se favorável ao entendimento de que dois crimes (golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direto) sejam tratados como um só durante o cumprimento de penas relacionadas à tentativa de golpe, o que, na prática, resultaria em uma diminuição no tempo de prisão imposto aos réus, visto que a pena contaria apenas para um dos delitos.
Conforme divulgado pelo g1, o Congresso está debatendo a possibilidade de diminuição das penas no âmbito projeto conhecido como PL da Dosimetria para aqueles condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes.

Barroso mencionou que, em abril, dialogou sobre essa questão com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) e então argumentou que a "cumulatividade" dos crimes de golpe de Estado e de supressão violenta do Estado democrático de direito não seria viável.
Prevenção do casuísmo
Apesar de rever sua posição, Barroso acredita que qualquer mudança voltada para a alteração das penas desses delitos seria "casuísmo", já que a redução deveria ser discutida apenas aos "bagrinhos" — os pequenos envolvidos, não aqueles que elaboraram ou financiaram os atos, visão que tinha já muito antes do veredito contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por 27 anos e 3 meses na prisão por cinco delitos.
"Eu disse a eles [Motta e Alcolumbre] que concordava que aquela me parecia a melhor solução: dar uma redução de pena. Os 'bagrinhos' cumpririam dois anos ou dois anos e meio e sairiam da prisão, o que eu achava de bom tamanho para os que não eram financiadores nem planejadores", comentou.
"Mexer no tamanho das penas não, acho que é uma legislação recente, curiosamente aprovada no governo passado, de defesa do Estado democrático de direito, as penas são razoáveis. Mexer na pena acho que é um casuísmo. Fazer prevalecer uma interpretação alternativa razoável, como essa da consunção, acho que é palatável", argumentou Barroso.
Sanções americanas e futuro da carreira
Ao ser questionado se as restrições impostas pelo governo americano a membros do STF, como a ele mesmo e ao ministro Alexandre de Moraes, Barroso não as considera o ponto mais delicado de sua presidência, apesar de classificá-las como inesperadas e se sentir triste, mencionando os impactos diretos em sua vida acadêmica e pessoal.
"No meu caso especial, e da minha família, houve a questão do visto. Não recebi nada oficial, mas tenho relações acadêmicas com instituições nos Estados Unidos e também em outros países. Tinha compromissos que não pude cumprir. Não é que não faça diferença — faz, sim. Tenho ligações acadêmicas, tenho amigos queridos. Fico chateado", esclareceu.
Após deixar a presidência, Barroso comunicou que fará um retiro espiritual por uma semana, quando decidirá sobre encerrar seu "ciclo" no tribunal ou seguir trabalhando.

