'Caricatura' de democracia: presidente da Moldávia não descarta anular eleições se oposição vencer

As eleições parlamentares deste domingo são marcadas por intensa turbulência política e forte pressão contra partidos rivais.

A presidente da Moldávia, Maia Sandu, não descartou a possibilidade de anular os resultados das eleições parlamentares deste domingo (28) caso a oposição vença, citando suposta interferência russa no processo de votação.

"Sabemos que houve muita interferência, mas as decisões cabem às autoridades competentes. Vimos algumas medidas adotadas pela Comissão Eleitoral Central até esta semana", declarou Sandu à imprensa.

Guinada autoritária

As eleições deste ano ocorrem em meio a intensa turbulência política. O Partido de Ação e Solidariedade (PAS), da presidente, busca manter a maioria e continuar o rumo pró-União Europeia. A oposição, liderada pelo Bloco Patriótico, acusa o governo de autoritarismo e repressão à dissidência.

Políticos de oposição sofreram detenções em massa antes da votação. Partidos críticos ao governo foram impedidos de participar e colégios eleitorais foram reduzidos em regiões desfavoráveis às autoridades atuais.

Fraude eleitoral à vista?

O ex-presidente Igor Dodon sugeriu que o governo estaria preparando um "cenário à la Romênia", em referência às eleições presidenciais romenas anuladas em dezembro passado após vitória de um candidato classificado como pró-Rússia.

"Creio que foi o Ocidente que se envolveu nesta campanha eleitoral. Isso indica que possivelmente estão preparando um cenário como o da Romênia", disse Dodon após votar.

Vasili Tarlev, ex-primeiro-ministro e líder do partido Futuro da Moldávia, parte do Bloco Patriótico, acusou as autoridades de planejar fraude em grande escala:

"Estão impedindo a entrada de observadores e jornalistas independentes. É sinal claro de fraude eleitoral generalizada. Temem eleições transparentes e supervisão internacional, porque perderam a confiança da população e sabem que perderão as eleições", afirmou.

Tarlev acrescentou que o credenciamento de observadores internacionais e jornalistas, inclusive da Rússia e países da CEI, foi limitado. "Essas medidas prejudicam o processo democrático e questionam a legitimidade do voto", denunciou.

''Caricatura'' de democracia

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, classificou o processo eleitoral moldavo como "uma caricatura infernal de um processo democrático":

 "Modela-se o resultado, selecionam-se as listas correspondentes e depois se cria o processo, que chamam de eleição", disse Zakharova.

Já o embaixador russo em Chisinau, Oleg Ozerov, chamou a campanha eleitoral atual de "a mais suja" que já viveu:

"Sendo sincero, nunca me deparei com uma campanha eleitoral tão suja. Trabalhei e vivi em muitos países, países que há muito tempo são considerados exemplos de democracia, incluindo a França, e estive na Inglaterra. Certamente houve alguns incidentes lá, alguns muito sujos. Mas o nível de mentiras, calúnias e distorção dos fatos na campanha moldava me surpreendeu", relatou.

O vice-presidente do Conselho da Federação da Rússia, Konstantin Kosachov, observou que, fora do país, os colégios eleitorais foram organizados de forma seletiva, apenas em lugares favoráveis ao governo, enquanto observadores independentes foram impedidos de acompanhar a votação.